13 de jul de 2017

ASTROLOGIA E CRISTIANISMO EM DIÁLOGO

No decorrer de dois milênios a Astrologia e o Cristianismo viveram uma intensa dinâmica de convivência em controvérsia.
De um lado, altas autoridades religiosas mantinham estreitas relações com astrólogos, como que requerendo e aprovando o seu trabalho; por outro, a totalidade dos documentos canônicos das três vertentes do Cristianismo, a saber: a Católica, a Oriental (Ortodoxa) e a Protestante, manteve no decorrer dos séculos a interdição de toda prática que parecesse ser divinatória, entre elas a da Astrologia.
Mesmo assim, e até em países dominantemente cristãos, como Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha e Brasil, a Astrologia não deixa de ser praticada até hoje e fiéis da cristandade, mesmo quando o fazem com certa culpa ou vergonha, não deixam de consultar astrólogos.
Em todo este longo tempo, três foram as questões principais, nos campos da Ciência (a Astrologia funciona?), da Ética (a Astrologia desrespeita o livre-arbítrio?) e da Teologia (servir-se da Astrologia é violar a fé e a esperança em Deus?).

As descobertas dos séculos 20 e 21 parecem oferecer conhecimentos que possam permitir o estabelecimento de boas pontes de convívio e diálogo entre Astrologia e Cristianismo, à busca de compreender melhor por que de fato ela funciona, por que ela não desrespeita o livre-arbítrio e por que utilizá-la não é violar a fé e a esperança em Deus.

No caminho do diálogo – Passos importantes neste sentido estão sendo dados por um pesquisador brasileiro, o jornalista e escritor Luiz Carlos de Carvalho Teixeira de Freitas, que desde a década de 1980 pesquisa o assunto e escreve sobre ele, e lançará no final de julho de 2017 o seu sexto livro na área, agora sob o tema Astrologia e Cristianismo em diálogo.

Há anos o autor vem trabalhando no âmbito do Pensamento da Complexidade para construir um modelo epistemológico que articule os tradicionais conhecimentos da Astrologia Ocidental, desde Ptolomeu, com os conhecimentos dos séculos 20 e 21, na elaboração de respostas consistentes sobre a validade e a utilidade das práticas astrológicas.
Agora, com base no trabalho de teólogos como S. Tomás de Aquino, S. Agostinho e S. Alberto Magno, e em descobertas contemporâneas da Biologia, da Física de Partículas (Quântica), da Neurociência e da Psicologia, o livro avança nas questões da fé, do livre-arbítrio e da validade da Astrologia.

Este meu estudo é estritamente dentro do âmbito cristão, explica o autor, razão pela qual não discuto o assunto à luz de outras religiões, como seriam a budista, a islamita, a judaica ou a hinduísta. Talvez isto venha a ser feito um dia. Por enquanto, e porque o Brasil é dominantemente cristão, escolhi ater-me ao Cristianismo. Com isto em vista, o conteúdo do livro se desdobra em três aspectos entrelaçados e apresentados em linguagem de fácil acesso: a) o que teólogos cristãos fundamentais já afirmaram sobre a veracidade da Astrologia; b) como se colocava, para estes pensadores religiosos, o respeito ao livre-arbítrio humano e a manutenção da fé e da esperança em Deus, versus a aproximação com a Astrologia; c) o que, segundo alguns conhecimentos das últimas décadas do século 20, permite julgar que a Astrologia é de fato efetiva e válida, isto é, que ela funciona.

Segundo Teixeira de Freitas, este livro é um passo no sentido de construir um espaço de diálogo no qual pensadores cristãos e não cristãos, bem como especialistas de diferentes campos de conhecimento científico, possam trocar informações e cotejar conceitos, na tentativa de avançar na compreensão das bases objetivas da Astrologia e no melhor entendimento das questões humanas, científicas, éticas e religiosas, que sua prática ou seu estudo suscitam.

Contam que quando Einstein terminou a formulação teórica da Teoria da Relatividade Geral, em 1915, solicitou auxílio de David Hilbert, um dos mais brilhantes matemáticos daquele tempo, o qual finalizou as fórmulas necessárias e teria dito: a Física é importante demais para ficar apenas nas mãos dos físicos.
Diz Teixeira de Freitas: penso o mesmo em relação a Astrologia, mas para isso outras áreas de conhecimento deverão querer se aproximar dela. É um caminho que demorará a ser mais inteiramente percorrido, de tão delicadas e complexas são as questões envolvidas, indo do livre-arbítrio humano, dom de Deus, à existência de dinamismos não-materiais e intemporais que atuam com eficiência nas formas de organização da obra de Deus, o mundo, e são sinalizados há milênios pelos símbolos da Astrologia. Sabe-se que um longo caminho começa pelos primeiros passos. Esta minha obra demonstra e explica o início da caminhada.

O lançamento
O livro Astrologia e Cristianismo em diálogo será lançado em 21 de julho de 2017, na noite de abertura da XII Semana de Astrologia, na Escola Gaia de Astrologia, uma importante escola astrológica brasileira, situada em São Paulo (rua Frei Eusébio da Soledade, 74, Vila Mariana, telefone 11 5084.3256).

Às 20:00, o autor dará uma palestra aberta ao público sobre o assunto e, depois, fará uma noite de autógrafos.






Se quiser saber mais sobre este assunto, siga o link.

UM LONGO CAMINHO

A elaboração de novas ideias depende da libertação
das  formas habituais de pensamento e expressão.
A dificuldade não está nas novas ideias,
mas em escapar das velhas, que se ramificam
por todos os cantos da nossa mente.

John Maynard Keynes



Em julho de 2017 lançarei em São Paulo meu 16º livro, seis dos quais dedicados a analisar a Astrologia e a mente humana: Astrologia e Cristianismo em diálogo.

Nele, visitando o pensamento de S. Agostinho, S. Tomás e S. Alberto Magno, proponho um olhar que a mim parece esclarecedor entre questões éticas ou religiosas e a Astrologia, com vistas a aproximar melhor essas importantes áreas da vida humana que por milênios viveram afastadas ou, no máximo, convivendo de modo conflituoso.
Junto a isso, deixa-me esperançoso o fato de que, no livro, apresento um modelo epistemológico que venho desenvolvendo desde a alguns anos sob o nome de “Astrologia Arquetípica”. Este modelo explicativo da Astrologia indica de modo claro que a Astrologia não é superstição, não viola o livre arbítrio e nem desrespeita a fé em Deus ou a esperança no futuro.
Quis, então, escrever aqui no blog, não sobre o conteúdo do livro, para evitar spoiler, mas sobre o percurso que me trouxe a um modelo teórico explicativo da Astrologia, dentro da moldura científica dos séculos 20 e 21.

1984 e o encontro com a Astrologia Quem acompanha meu trabalho sabe que desde 1988 escrevo sobre Astrologia e a mente humana. Naquele ano fui convidado a dirigir um workshop no II Congresso Internacional de Terapias Alternativas, realizado em São Paulo no Centro de Convenções Rebouças, no qual apresentei um modelo de sistema psicodiagnóstico inteiramente baseado em interpretação de Carta Natal astrológica.
Mas se em agosto de 1984 a Astrologia entrara em minha vida para nunca mais sair, o fizera também para desafiar-me: se não há efeito enérgico de planetas induzindo ocorrências corporais, emocionais ou mentais nas pessoas, como por muitos milênios se julgou ocorrer, o que é que, de fato, torna a Astrologia um eficiente recurso psicodiagnóstico?

Sim, isto: a inexistência dos tais efeitos dos corpos celestes, eu percebera com rapidez ao entrar em contato com as hipóteses e formulações astrológicas. Procedimentos técnicos da própria Astrologia jogavam por terra a possibilidade de ser de energia que se estivesse falando, como viria a escrever em 1989, em meu primeiro livro na área – e de lá para cá não cessei de afirmar, até mesmo incomodando alguns mais afetivamente aderidos à suposição de existência de tais energias.
Alguma outra coisa é que fazia a Astrologia funcionar.

A visão sistêmica, ou holística A primeira tentativa que busquei de elaboração de um modelo explicativo, dentro do que se costuma intitular ciência, foi por conta da visão sistêmica que cresceu no mundo científico a partir de meados do século 20, notadamente após o trabalho do biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy e sua Teoria Geral dos Sistemas. Este modelo de entendimento da existência, também chamado holístico, eu já conhecia desde a década de 1970, pois a noção sistêmica está na base de Escolas da Psicologia que eu estudara, como a da Gestalt.
E por que me parecia imprescindível haver uma possibilidade explicativa da Astrologia que satisfizesse os requisitos do pensamento científico? Porque apenas assim a Astrologia poderia ser retirada do nicho de ciência arcana ou ciência oculta, onde fora posta por milênios, para poder ser enriquecida por outros campos de conhecimento, ao mesmo tempo em que os enriquecendo.
Não me seduzia sentir-me ou me dizer participante de um clã de iniciados, o que seria vaidosa tentativa de firmar-me sobre um suposto diferencial pessoal elogiável (junto a quem admira isso). Preferia ver-me como quem estuda e pratica uma técnica útil derivada de um variado conjunto de conhecimentos, a Astrologia, que necessita e almeja ser reconhecida como efetiva e válida além de questões de crença ou opinião, para poder beneficiar mais e melhor a quem venha a servir.
Mesmo sendo um homem com fé e também inclinado a analisar com cuidado e atenção os chamados esoterismos, é central em mim o respeito à dignidade da Ciência: sou um capricorniano com ascendente em Sagitário, tendo Saturno e Netuno conjuntos em Libra na Casa XI e Sol na Casa I em trígono com Júpiter, e tudo isto denota, para quem conhece Astrologia, que não tenho – e nem quero ter – alternativa, senão a de maravilhar-me com o mundo enquanto questiono: o que? por que? onde? como? quando?
Em consequência de ser assim, em minhas abordagens iniciais adotei por hipótese explicativa geral a suposição de que tudo que existe integra um único macrossistema, razão por que os movimentos dos corpos celestes pelo Zodíaco seriam indício, nunca a causa, do que ocorre em outras localidades do macrossistema, no caso, o sistema solar relacionado à Terra e, mais focadamente, a um dado momento no tempo terrestre (data e horário de nascimento) e no espaço terrestre (local de nascimento).

Esta ampla noção, inclusive, confortava-me ao atribuir algum sentido no que eu verificava ser possível fazer por meio do simbolismo da cabala, do I Ching ou do tarô, os quais entraram de modo maciço em minha vida junto com a Astrologia, embora pouco tempo após viessem a refluir, na medida em que ficava claro para mim que a Astrologia era a ferramenta que me cabia e todo o mais, como cabala, I Ching ou tarô, seria apenas enriquecimento cultural ou distração em meu caminho. Não, que não tenham valor, pois têm e, imenso! mas são para quem os recebe por destinação, o que não era meu caso.
Mais adiante percebi que, como resume o pensador francês da Complexidade Edgar Morin, o reducionismo [newton-cartesiano] sempre suscitou por oposição uma corrente “holística” baseada na proeminência do conceito de globalidade ou de totalidade; mas, sempre, a totalidade não passou de um saco plástico envolvendo não importa o que, não importa como, e envolvendo muito bem; quanto mais a totalidade tornava-se plena, mais ela ficava vazia.
Mesmo admitindo que as ocorrências em algum local do macrossistema poderiam denotar o que ocorria na mente de uma pessoa analisada segundo sua Carta natal astrológica, como em uma megagestalt em que tudo de alguma forma se relaciona mutuamente, e ainda que se dominasse o simbolismo que associava as coisas, isto não explicava de jeito algum a natureza do dinamismo ativo pelo qual tudo funcionava. A questão continuava exigindo resposta.

Simbolismo e sincronicidade Outra possibilidade, e fascinante na mesma medida em que perigosa (dado o fascínio), foi a da sincronicidade, mas dentro de um caldo geral de noções que costuma apropriar o pensamento junguiano de modo ligeiro demais.
A riqueza simbólica plástica da Mitologia grega, o vago conceito junguiano de sincronicidade (vago, só quando mal conhecido ou compreendido), algumas pitadas de Física Quântica (palavrinha mágica que, na pós-modernidade líquida que nos envolve a todos, veio parecendo poder ser qualquer coisa) e, pronto, estaria dado um suposto modelo explicativo da efetividade da Astrologia!
Até que um pouco de bom senso jogasse fora o isopor decorado com glitter e expusesse a inconsistência de tudo isto na tentativa de explicar como a Astrologia funciona.
Decerto havia verdade nas teorias sobre simbolismo; seguramente também havia verdade no conceito de sincronicidade, como formulado por Carl Jung e pelo Nobel em Física Wolfgang Pauli; de fato, as associações possíveis entre a simbólica da Astrologia e as dinâmicas funcionais ou de conteúdo da mente humana eram constantes e estáveis no tempo; e tudo isso dava consistência factual ao sistema psicodiagnóstico que eu perseguia. Mas nada disso explicava o que eu buscava entender: a relação objetiva entre a simbólica da Astrologia e, na causação da mente, suas funções e seus conteúdos.

Eu fizera uma escolha: embora pesquisando Astrologia, que se diz competente para fazer diagnóstico de quase qualquer ocorrência, seja mente ou seja corpo, seja empresa ou evento ou coisa, eu decidira restringir-me à mente humana e seus dinamismos inconscientes e, por desdobramento vital, conscientes e ambientais. Com isso, poderia ganhar em foco e precisão no meu estudo.
De outro lado, quanto mais eu mergulhava na Astrologia, mais me certificava de ela ser competente para propiciar descrições e previsões e, não, para fazer adivinhações, embora a imagem geral que dela se tivesse (e ainda se tenha) seja a de ser divinatória, isto é, de profetizar (do grego profêtês, “que diz com antecipação”) o que haverá.
Qual a diferença? Quem adivinha (de divinare, “ver inspirado por um deus”, divinus) descreve o que haverá em tempo futuro, quase como se o estivesse vendo, ao passo que quem prevê (de prævisĭo, “conjecturar sobre o que vai acontecer, por meio da interpretação de indícios ou sinais”) estipula probabilidades de ocorrência à luz de fatores avaliados.

Como todo fenômeno complexo costuma ser resultado de múltiplos fatores concomitantes, pois nem todas as causas, mesmo sendo necessárias, são suficientes, esta diferença é o que explica o fato de predições astrológicas fracassarem: se forem feitas como adivinhação, ao afirmar que tal ou qual coisa ocorrerá a enunciação soa absoluta (quase como se a coisa estivesse sendo vista e descrita), mas basta haver um fator não previsto, ou o livre-arbítrio, ou o mero acaso, ou a vontade de Deus, para a coisa não acontecer.

É bom e prudente pensarmos em falibilidade, ao pensar em Astrologia.
Einstein, em 1921, no artigo Geometria e experiência escreveu: na medida em que as proposições da matemática se referem à realidade, elas não são certas; na medida em que são certas, elas não se referem à realidade. A isto, se referia: na boa Ciência, como na natureza, nada é nunca, nada é sempre. É natural a Astrologia errar em diagnósticos ou prognósticos, na medida em que faz descrições ou previsões e, não, adivinhações.
Com isso eu não deslegitimava fenômenos paranormais, com visões intemporais e não locais comprovadas à exaustão e estudadas, mas a Astrologia não é paranormal.

Além disso, como os símbolos são polissêmicos, isto é, denotam díspares significados concomitantes, o que acarreta variações interpretativas entre diferentes intérpretes (e distintas Astrologias) segundo o que mais valorizam, já que não há pessoa neutra, o lirismo praticado nas descrições mais usuais dos significados dos símbolos astrológicos torna tudo flutuante, volúvel mesmo, impedindo maior precisão descritiva, que é o que se espera do enunciado necessário para avaliar situações e tomar decisões.

Imagine-se saindo do consultório do médico que foi procurado em função de um intenso mal-estar orgânico que incomoda demais; se tivesse recebido dele apenas descrições poéticas ou metafóricas ou alegóricas do que aflige você, como você se sentiria?
No tocante a predições, poucos meses após a Astrologia ter entrado em minha vida tive conhecimento de um episódio que me serviu de lição para a vida toda: uma mulher se suicidara em São Paulo e o marido encontrara em seus guardados cassetes de áudio em que um astrólogo informava à mulher que ela contrairia uma grave doença degenerativa e teria um dolorido e tristíssimo fim de vida. Resultado: tragicamente ela abreviou um processo que talvez nunca viesse a ocorrer (quem sabe?), pois nem doente ela já estava, ao passo que o astrólogo foi processado criminalmente.

A busca do elo desconhecido A hipótese de ação das energias dos corpos celestes não sobreviveu em minha mente senão por curto tempo, mesmo havendo obras de respeitáveis astrólogos afirmando-a, como o matemático e médico Morin de Villefranche, no início da Modernidade, e o Mestre em Psicologia Steven Arroyo, nos fins do século 20.

Evidentemente não falo de Sol e Lua, que, pela proximidade com o nosso planeta, exercem efeitos variados sobre toda a biosfera. Refiro-me a efeitos dos outros astros adotados pela Astrologia, os quais se supõe, na Astrologia convencional, que excitam o arrojo ou a ira, exaltam a ternura ou a luxúria, propiciam otimismo ou esperança e atribuem sensatez ou cautela.

Afinal, entre outros exemplos – para nem falar da Precessão dos Equinócios, que faz com que o Ponto Vernal não marque mais em 0o Áries o exato início do Zodíaco, como se dava há dois mil anos, embora no Zodíaco imaginado tudo continue igual –, a Parte da Fortuna é só uma formulação matemática sobre três pontos zodiacais (Sol, Lua e Ascendente), mudando a fórmula conforme o horário de nascimento, se diurno ou noturno; os Nodos Lunares são apenas pontos geométricos de intersecção cósmica das órbitas da Terra em torno do Sol e da Lua em torno da Terra; as Direções Secundárias, centrais em todo sistema de prognóstico astrológico, adotam Planetas se movimentando muito mais lentamente do que está nas Efemérides; as Direções Conversas, então, pressupõem corpos celestes orbitando para trás, o que nunca acontece, dando-se igual com as Retrogradações Planetárias, que são uma ilusão de óptica do ponto de vista da Terra, pois astro algum retrograda em seu trajeto cósmico.
Como sabemos, hipóteses ou convenções ou pressupostos teóricos não emitem energia, pouco importa de que energia estejamos falando.

A hipótese holística também não ofereceu resposta satisfatória à questão: com quais fatores causais os símbolos astrológicos se relacionam, no macrossistema, para servirem de indícios seguros que podem embasar um diagnóstico ou prognóstico, já que não era a fatores cósmicos objetivos, os planetários, que tudo parecia se relacionar?

A hipótese da sincronicidade, embora mais sofisticada, igualmente não atendeu à necessidade de responder à questão: o que explica a efetividade da Astrologia?, pois a noção de sincronicidade, tal qual desenvolvida por Jung no decorrer de 40 anos de trabalho, estipula que eventos em sincronicidade ocorrem de modo esporádico, irregular e imprevisível entre a psique e o ambiente, quase se pode dizer aleatório, frutos que são do inconsciente psicoide autônomo e não pessoalizado, não podendo ser possível, então, estabelecer padrões de ocorrência. Mas toda interpretação astrológica é padronizada – “w” significa “x”, “y” significa “z”, e sempre, assim –, seja qual for o padrão adotado.
Pode-se falar de sincronicidade em Astrologia, mas quando o fizermos estaremos apropriando de modo livre o termo, indo além do conceito junguiano. E poderemos estar nos acercando, em verdade, do conceito de Não localidade, desenvolvido pela Física de Partículas, ou Quântica, para descrever o que ocorre entre duas partículas brotadas do mesmo momentum da nuvem de probabilidades quânticas: quando uma das partículas do par emaranhado é afetada, no mesmo exatíssimo instante a outra se altera, mesmo havendo distância incomensurável entre as duas no continuum espácio-temporal.
De alguma forma há relação dinâmica entre ambas, independente de espaço e tempo, e foi entre a Biologia, a Física de Partículas, a Neurociência e a Psicologia Analítica (ou junguiana), que comecei a vislumbrar o que dá efetividade à Astrologia desde priscas eras e até hoje, em que pese sua falibilidade, como todo sistema de diagnose e prognose aplicado à existência.
Como mostrarei ao falar de campos mórficos, o que dá efetividade à Astrologia parece de alguma forma se referir ao que o filósofo da ciência Ervin László denomina Campo A, mencionando um vasto campo universal manifestado em cada local, um campo que, embora não caracterize qualquer coisa sob uma forma concretamente manifesta, contém toda a existência em potencial (...) Ele está pleno da possibilidade de tudo o que existe. O mundo dos fenômenos é sua criação: a realização de seu potencial inerente.
Isso é o que, a meu ver, propicia que a Astrologia, ao identificar parcela dos dinamismos imateriais e intemporais atuantes, detecte parte do que já há, mesmo se oculto, e do que tenderá a ocorrer como existência manifesta.

A estabilidade milenar do simbolismo astrológico Baseada em qual coisa é que a Astrologia descreve o que não vê – no caso da Astrologia Arquetípica, o inconsciente da pessoa, que nem a própria pessoa conhece –, desde muito antes de Ptolomeu e fazendo-o igual até hoje?
O primeiro dado a considerar é que os mesmíssimos símbolos carregam significados semelhantes associados às mesmíssimas coisas mentais desde as formulações originárias da Astrologia.
Tendemos a avaliar que tudo mudou em demasia e nos esquecemos de que as dinâmicas fundamentais da mente, sejam de ordem sensorial, sentimental, intelectiva ou intuitiva, são universais (isto é: ocorrem em toda a espécie) e mais ou menos as mesmas desde a milênios, variando a forma de aceitação ou expressão segundo o que cada agrupamento cultural define ser bom ou ruim, apropriado ou inconveniente.
Isso, a Neurociência mostra de sobejo hoje em dia, permitindo que se possa identificar até, com base em conhecimentos e experimentos de consultório e laboratório, as bases neurofuncionais do que Jung pioneiramente teorizou sobre arquétipos, enquanto dinâmicas básicas constituintes e cocausadoras da mente humana, o que parecia ser só hipótese.
Os primeiros humanos e os humanos do século 21 vivenciavam e vivenciam análogas flutuações emocionais e diferentes estados corporais simbolizáveis pela Lua; investigavam e investigam a realidade, comunicando-a uns aos outros e trocando entre si o de que precisam para viver (comércio), de modo simbolizável por Mercúrio; valorizavam e valorizam de acordo com o que Vênus simboliza; agiam e agem segundo o simbolizado por Marte; elaboravam e elaboram regras de convivência que estipulam o que é justo ou injusto e adequado ou não (normas e leis), conforme as relações grupais simbolizáveis por Júpiter; e, sem cessar, submetiam e submetem o cotidiano e a si ao cheque de realidade, como Saturno simboliza, para poderem sobreviver com maior segurança.
Urano, Netuno e Plutão são outra história, e mais complexa, mas é tudo símbolo.

Decorreram mais de 1.300 séculos entre eles, os primeiros humanos, e nós, humanos do século 21, mas, e daí? Ainda é muito parecido, se é de fenômenos fundamentais da mente que estamos a falar e são indicados por signos (não falo dos Signos astrológicos, mas, sim, daquilo que pode ser ícone, índice ou símbolo no exercício mental de retratar a realidade).
Os signos adotados vieram apontando dinâmicas causais mantidas constantes em todo este período, e este é o primeiro elemento da hipótese que veio se construindo em mim: aquilo que por milênios se supôs – a ação determinante da energia dos corpos celestes – poderia ser, de fato, já que de astro não era, a ação de algo perene que atuava como causa, embora deste algo ainda não houvesse conhecimento ou compreensão.
Certamente, os primeiros humanos perceberam a existência de padrões de ocorrência terrestre, em sua vida, na de outrem e no mundo, e buscaram explicar tais padrões como decorrendo da ação direta de um algo-causa.
Ao mesmo tempo, e penso em um intervalo muito longo de tempo, pois os primeiros registros astronômico-astrológicos conhecidos datam de ao menos 10 mil anos antes dos dias de hoje, perceberam haver padrões no céu, região do mundo de onde os deuses faziam sentir sua ação (este é pressuposto ocorrente em todas as culturas conhecidas: os deuses atuam a partir do céu).

No céu, certos pontos de luz apresentavam padrões regulares de surgimento e deslocamento, sendo percebidas, as estrelas errantes (que hoje chamamos planetas), como diferentes das outras estrelas, as estrelas fixas.
Assim, o estabelecimento de conexões hipotéticas entre os padrões percebidos na Terra e os padrões celestes foi se dando de modo natural, embora ainda sendo tidos (e permanecendo assim por muito tempo), os padrões celestes, como sendo o suposto algo que determinava os padrões terrestres.
Com isso, dinâmicas causais características (percebidas pelo efeito-padrão de algo no comportamento íntimo e ou manifesto de cada indivíduo, isoladamente e em relação interpessoal) foram relacionadas a também específicas ocorrências celestes: estas, a Sol ou Mercúrio; outras, a Lua ou Vênus; terceiras, ainda, a Marte ou Júpiter ou Saturno, ou a peculiares arranjos geométrico-zodiacais entre pontos, que são os Aspectos astrológicos.
Por que se atribuiu este algo exatamente aos astros? Porque, além de serem do céu, isto é, dos deuses, eram os únicos elementos objetivos, percebidos a olho nu no mundo, que invariavelmente mantinham padrões, e sempre os mesmos, no lento escoar do tempo. Todo o mais da natureza perceptível, no reino mineral inanimado e nos reinos da biosfera animada, não apresentava nem mantinha padrões regulares aos quais se pudessem relacionar, de modo estável, duradouro e previsível, os padrões observados nos humanos.
Mas de que algo se está a falar? Que algo pode ser este, ao qual desde o início os símbolos astrológicos foram relacionados e que foi tido como sendo causa?

Detecção de campos imateriais e não temporais – Só os conhecimentos dos séculos 20 e 21 puderam apresentar uma hipótese explicativa mais consistente para este algo, com base nas Ciências da Natureza e, entre estas, a Biologia Molecular e a Física: parece tratar-se de campos imateriais e intemporais associados a toda forma de existência manifesta e que atuam sem cessar, codeterminando a forma e a função de tudo o que existe (seja coisa ou pessoa), e seja em tempo passado (cocausando a forma), presente (mantendo a forma) ou futuro (orientando a forma).


Tal tipo de concepção surgiu na Biologia, com os campos mórficos e a ressonância mórfica do biólogo Rupert Sheldrake, que os apresentou como hipótese em 1981 e, 10 anos mais tarde, publicou experimentos laboratoriais que começaram a comprová-los.

Aliás, o triênio 1980-1982 foi fabuloso para o novo tipo de concepção de mundo que se foi construindo e pôde propiciar compreensão sobre o que dá efetividade à Astrologia.
Em 1980 o físico David Bohm apresentou a teoria da Totalidade e a Ordem implicada, segundo a qual existe um campo organizacional imaterial quântico (a Ordem Implicada, subjacente ou dobrada) que predetermina tudo o que virá a existir (na Ordem Explicada, manifesta ou desdobrada), inclusive o tempo, com o que se estabelecem as correlações entre os fenômenos manifestos, na Ordem Explicada, de acordo com as correlações potenciais que suas probabilidades de ocorrência mantinham entre si na Ordem Implicada.
Em 1981 Rupert Sheldrake apresentou a noção de existência dos campos mórficos, que segundo ele são estruturas imateriais e intemporais, isto é, independentes de matéria e tempo, os quais são decorrentes das coisas surgidas e têm um papel causal no desenvolvimento e na manutenção das formas [e funções] de sistemas de todos os níveis de complexidade. Neste contexto, a palavra “forma” é utilizada para indicar não apenas a superfície externa ou o limite fronteiriço do sistema, mas, inclusive, sua estrutura [e função] interna.

Em 1982 o físico Alain Aspect comprovou experimentalmente a Não localidade, isto é, a existência de correlação dinâmica entre duas partículas originadas do mesmo momentum (o colapso) na nuvem de probabilidades (o campo quântico), até se entre elas houver uma distância estelar. Como ele, próprio, escreveu: em certo sentido, ambos os fótons permanecem em contato através do espaço e do tempo.

Por óbvio, o avanço deles todos se apoiou no trabalho de precursores, como relato em Por uma Filosofia da Astrologia, e, para o que aqui interessa, permitiu que eu vislumbrasse as reais bases operativas da Astrologia Arquetípica, em sua tarefa de diagnosticar e ou prognosticar aspectos da realidade mental.
Segundo o modelo epistemológico que pude desenvolver, embora ainda falte compreender melhor, campos mórficos se articulam dinamicamente com o composto psicossomático individual desde a fase formativa da pessoa, sendo que na psique isto se dá por meio de arquétipos atuantes no campo psicoide do indivíduo, com o que a Astrologia Arquetípica, ao detectar os campos mórficos e principais dinâmicas arquetípicas atuantes em cada caso, e ao descrever a qualidade e intensidade de seus efeitos ab initio, consegue diagnosticar as características determinantes daquela particular psique, quer durante a fase de formação ou no tempo presente, quer como tenderão a se manifestar em um futuro previsível, pela interpretação dos símbolos que a Astrologia elaborou no decorrer da História e utiliza.


Como descrevo no livro Astrologia e Cristianismo em diálogo,
no esquema gráfico, acima, o olhar do astrólogo, ao analisar o indivíduo (1), embora pouse no conjunto de símbolos astrológicos que o caracterizam na Carta Natal astrológica (2) e, segundo os modos convencionais de interpretação, pareçam estar denotando como os corpos celestes atuam sobre a pessoa, o que de fato está sendo percebido pode ser o conjunto de efeitos de peculiares campos imateriais e intemporais (3) que, estes, sim, atuaram, atuam e atuarão sobre o indivíduo e condicionaram, condicionam e condicionarão em importante medida (4) a sua forma de se expressar na existência, sejam corporais ou mentais estas expressões, donde o astrólogo poder falar de formas características de comportamento (íntimo ou manifesto) e ou de peculiares ocorrências na existência da pessoa, em sincronicidade, segundo o que a simbólica utilizada indica em cada caso particular, com base em padrões gerais e duradouros um dia percebidos e estabelecidos.
Milênio e meio atrás, na ausência deste tipo de possibilidade de entendimento (...) a habilidade aprendida e desenvolvida, por alguns poucos, de detecção de tais efeitos e padrões, expressos em características das coisas e ocorrências previsíveis, bem poderia parecer coisa de “espíritos não bons”, como acreditado por S. Agostinho.
Pela mesma razão, se S. Tomás de Aquino ajuizava que “a própria disposição de órgãos, adequada ao movimento, procede de alguma forma da influência dos corpos celestes”, como é que ele poderia conjecturar, fora do âmbito da fé (“espíritos”) e no âmbito da razão (e da Ciência da época), a existência de campos imateriais e intemporais codeterminando a forma e a função dos órgãos, conceito que permitiria a ele deixar de supor a existência de influência dos corpos celestes?
Mesmo assim, embora os conhecimentos científicos do século 13 fossem mais limitados, S. Alberto Magno estipulou em 1260, em estudo feito a pedido do Papa Alexandre IV e como debato no mesmo livro, que nenhuma ciência humana alcança compreender a ordem do universo tão perfeitamente como a ciência dos julgamentos das estrelas.


Disponho-me a ser persuadido da existência de algo diferente do que formulei no modelo epistemológico da Astrologia Arquetípica que vim podendo elaborar, mas até agora mais e mais me convenço daquilo que a articulação combinada de tais conhecimentos me indica e busquei explicar sucintamente aqui.
O físico norte-americano Richard Feynman, Prêmio Nobel e introdutor dos conceitos de nanotecnologia e computação quântica, disse um dia: ainda não é óbvio, para mim, que não há um problema real [com a Mecânica Quântica]. Não posso definir o problema, portanto suspeito que não há problema, mas não estou seguro de que não há problema. Por isso, gosto de investigar as coisas.
Penso o mesmo, em relação à Astrologia e, por isso, no começo deste texto, disse-me esperançoso. É que acredito que bastante em breve a Astrologia Arquetípica será admitida como campo de interesse científico, dentre as Ciências da Natureza, embora possa também estar entre as Ciências Sociais, para o que o meu trabalho poderá ter sido um passo a mais, no caminho de investigar mais e aperfeiçoar melhor o muito que ela pode oferecer.

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