16 de out de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA E TRANSDISCIPLINARIDADE, NO APOIO AO ATENDIMENTO PSICOTERAPÊUTICO

(Segunda parte)

V.
Como expliquei melhor em O simbolismo astrológico e a psique humana, em meados de década de 80 enfrentei a necessidade de metodizar a entrevista devolutiva da interpretação, para que a multiplicidade de informações oferecida pela Carta astrológica natal pudesse compor uma narrativa organizada em linguagem leiga (isto é, deliberadamente sem jargão astrológico) que favorecesse o recobro dos dados, mais tarde, quando o consulente estivesse em trabalho terapêutico com quem o acompanhava, ou fosse à busca de solução, caso ainda não estivesse em terapia. Este era – e é aqui – o meu foco.
Em decorrência de meu estudo, optei por diferenciar duas classes distintas de conteúdos psíquicos que podem ser revelados pela interpretação da Carta astrológica natal, referidas a uma pessoa em particular porque calculada e elaborada, a Carta, com base na data, horário e local de seu nascimento:
a. fatores psicodinâmicos tipológicos inatos, causados por arquétipos funcionais[1] (e talvez cocausados por campos mórficos[2]) que atuaram na conformação desta psique; estes fatores eu passei a denominar “traços estruturais de personalidade”;
b. fatores psicodinâmicos condicionados de comportamento pessoal, causados por imagens arquetípicas decorrentes de arquétipos conteudísticos e por particularidades do ambiente de primeira e segunda infâncias; estes fatores eu passei a denominar “traços conjunturais de personalidade”, na medida em que passaram a vigorar na mente inconsciente por introjeção de dados da conjuntura vivida pela criança, como resultado de imagens arquetípicas internas que condicionaram a percepção das características objetivas e subjetivas do ambiente de primeira e segunda infâncias.



 


Ao falar de “ambiente de primeira e segunda infâncias”, identificável pelo conjunto simbólico da Carta astrológica natal, já estou a falar de sincronicidade, e o importante aqui é realçar que, da mescla dos produtos subjetivos da percepção realizada pelo indivíduo, como foi matizada pelas imagens arquetípicas, com as principais características objetivas do meio ambiente infantil, como são indicadas pela Carta astrológica natal, é que decorreu a quase totalidade dos conteúdos mentais pessoais inconscientes mais determinantes no indivíduo.
Tais duas diferentes classes de conteúdo merecem abordagens distintas pelo indivíduo, pois os traços estruturais, que são tipológicos e perenes, requerem “gerenciamento adequado de aspectos inatos”, ao passo que os traços conjunturais, que são fruto de treinamento por exposição a modelos, podem ser alvo de “desprogramação” ou descondicionamento, por catarse e ressignificação.
Catarse, porque as experiências vividas deixam resíduos inconscientes dos diferentes estados emocionais experimentados, instaurando a memorização de sentimentos que costumam estar na base de hábitos pessoais de comportamento e precisam ser revividos quando se almeja o descondicionamento.
Ressignificação, porque o mundo e a relação pessoal com ele são, antes de tudo, elaboração da mente por meio de imagens – “a psique é o eixo do mundo”, declarou Jung –, entre as quais as associadas a palavras e situações; a ressignificação, por conseguinte, permite redesenhar a imagem das relações existentes e redefinir a postura do indivíduo frente a elas.

VI.
Na prática interpretativa, passei a deduzir os traços estruturais de personalidade, alguns tendo experiência modulável pelo gênero (homem/mulher), a partir de cinco conjuntos de símbolos da Carta astrológica natal:
§  a Polaridade do Ascendente, do Sol e da Lua, avaliando o grau de predominância da instância anímica (Animus em mulher e Anima em homem) na dinâmica psíquica inconsciente da pessoa;
§  o total de Planetas por Elemento (Fogo, Terra, Ar ou Água), avaliando o balanceamento entre Intuição, Sensação, Pensamento e Sentimento;
§  o total de Planetas por Modalidade (Cardinal, Fixa ou Mutável), avaliando o grau de intensidade de estamina, resiliência e adaptabilidade;
§  o total de Planetas por Hemisfério (Noturno e Diurno), avaliando a ponderação de Introversão e Extroversão;
§  o total de Planetas em Signos de Polaridade positiva ou negativa, avaliando o grau de predominância das funções mentais dos hemisférios cerebrais direito ou esquerdo.
Para quem pratica Astrologia e vem fazendo esta contagem segundo métodos convencionais, informo que, diferente de contagens astrológicas por Modalidade, Elemento e Dignidade ou Debilidade, que dão pontuações variadas para distintos Planetas e para o Ascendente conforme o Signo em que estão, o que faço é contar de modo simples, um a um, como cedo pude aprender com o trabalho da astróloga norte-americana Betty Lundsted, sem pontuar o Ascendente e nem dar pontuação variável conforme seja Sol, Lua ou quaisquer Planetas.
Já os traços conjunturais de personalidade, eu os deduzo principalmente a partir de:
§  o Signo solar, isto é, o Signo em que está o Sol na Carta astrológica natal, e as principais narrativas míticas associáveis ao Signo;
§  a localização dos Planetas por Signos;
§  os Aspectos estabelecidos pelos Planetas entre si e com Ascendente e Meio do Céu (sendo ASC « MC o eixo estrutural simbólico de Persona);
§  a localização de Saturno por Casa astrológica.
Como a prática interpretativa destaca o que pareça mais significativo ou determinante a cada vez, outros detalhes podem ser identificados caso o trabalho se dê em níveis mais minuciosos, inclusive verificando a posição de Saturno, por Trânsito, e da Lua, por Direção Secundária Direta e Conversa (ambos, por Casa e Signo), quando da consulta de interpretação, para contextualizar no tempo a faceta arquetípica da teia do mundo em destaque: “qual é o mote, agora?”, que está sendo vivenciado (por aquela pessoa, segundo sua Carta).
A descrição pode ser enriquecida se for adicionalmente interpretada a localização de cada Planeta por Casa astrológica, além de por Signo, bem como fatores como Roda da Fortuna, Quíron, Lilith ou Nodos lunares, que são símbolos astrológicos secundários que optei por não discutir aqui.
No decorrer da interpretação, de mesmos arranjos simbólicos se extraem diferentes significados, conforme a passagem da narrativa que está sendo elaborada e expressa, sendo que esta simultaneidade de sentidos é uma das mais preciosas riquezas que a simbólica astrológica oferece, mas requer do astrólogo habilidade treinada, tanto na interpretação, quanto na elaboração e exposição (prudente) da narrativa devolutiva.

 
Se no quadro acima mencionei “espírito”, não estou atribuindo o que se costuma intitular “espiritual” a fator natural supra, infra ou intrapsíquico e, menos ainda, utilizando o termo em conotação religiosa. Estou apenas me referindo a fatores ordenadores imateriais de âmbito macro, derivados de campos mórficos e ou de campos psicoides, como se usa o termo em o “espírito do tempo”, denotando os dinamismos cocausadores de forma que determinam e definem o que ocorre no tempo e no espaço em cada fase ou instante.
Tão vasta é a variedade possível de informação, que a primeira regra de interpretação ensina: dentre todos os significados que se pode deduzir dos fatores-símbolo de uma Carta astrológica natal, selecione os que são mais decisivos do que se pode descrever e, com estes, construa a composição narrativa.
Já estará bom para o que se pretende.

VII.
Destacando que aqui falo especificamente do trabalho interpretativo que leva à psicoterapia ou enriquece a terapia que já esteja em andamento, Jung alertou em Psicologia e Alquimia que o simples conhecimento intelectual não basta, pois só é eficaz uma rememoração que seja ao mesmo tempo vivenciada de novo. Muitas coisas irresolvidas ficam para trás devido ao rápido escoar dos anos e ao afluxo invencível do mundo que acaba de ser descoberto. Mas não nos livramos destas coisas, apenas nos afastamos delas. Se muito tempo depois evocarmos novamente a infância, nela encontraremos muitos fragmentos vivos da própria personalidade, que nos agarram, e somos invadidos pelo sentimento dos anos transcorridos. Esses fragmentos permanecem num estágio infantil e por isso são intensos e imediatos. Só por meio de sua religação com o consciente adulto poderão ser corrigidos, perdendo seu aspecto infantil.
Neste exato sentido Fernando Pessoa poetou:
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou.
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
quero ir buscar quem fui onde ficou.
Como frisei em Astrologia Arquetípica, autoconhecimento e espiritualidade, a interpretação da Carta astrológica natal, se feita com propósito diagnóstico [isto é, visando enriquecer o cenário da psicoterapia], longe de ser unicamente um momento de mera discussão intelectual de dados e informações sobre a pessoa e sua destinação arquetípica e história vivida, é um encontro pleno de intensa afetividade, graças à vigorosa intervenção do próprio ato de interpretação, podendo ser um rito de passagem para outro estado de si, motivo pelo qual desde 1988 eu adoto a expressão ‘Astrologia Clínica’.
Enquanto recebe as informações que a Carta astrológica natal vocaliza por meio do intérprete, e podendo participar ativamente da dinâmica de desvelamento de si por meio da apresentação de questões e testemunhos durante a entrevista devolutiva (do conteúdo interpretado), a pessoa que consulta o astrólogo é levada a aferir, no íntimo, o que até aquele momento veio vivendo na existência:
§  o que obteve, frente ao que desejou;
§  o que atingiu, face ao que pretendeu;
§  as razões interiores de suas inadequações;
§  a confirmação de potenciais até então mal percebidos, mas pressentidos como verdadeiros e estando à espera de brotamento favorável.
Ou, como o astrólogo franco-americano Dane Rudhyar afirmou em A planetarização da consciência, se em decorrência do conhecimento propiciado pela interpretação astrológica a pessoa percebe que seus acontecimentos vitais, que até então haviam parecido cabalmente caóticos e sem sentido; se pode sentir uma direção e uma finalidade coerentes em sua vida, e como tem estado bloqueando esta compreensão do significado, da orientação e da finalidade, a Astrologia foi efetiva e pode levar a ir adiante.

VIII
O fato, se torna o processo interno mais compreensível por quem labuta para se conhecer ou entender melhor, e se reformar intimamente, ampliando a possibilidade de interferir (como der) nas próprias atitudes e comportamentos, e nas dinâmicas e conteúdos inconscientes que lhes dão origem, também costuma instalar um processo intenso de busca de alternativas de solução para o que foi detectado.
Tendo compreendido as razões de tantas de suas atitudes, inclusive as tidas por si como inadequadas ou inconvenientes, e tendo percebido – quiçá pela primeira vez – que pode interferir de modo ativo nos próprios dinamismos inconscientes para atenuar a compulsividade de comportamentos, a pessoa identifica e compreende melhor um panorama interior que é fruto de sua história formativa e, em imensa medida, veio determinando as condições de sua existência, por comportamento (íntimo ou manifesto) e sincronicidade (eventos associados por significado).
Mais ainda: é levada a enfrentar o dolorido fato de ter sido ela mesma, em ampla medida e de certa forma, cúmplice de suas dificuldades, mesmo se involuntariamente, já que reside em suas vontades inconscientes parte importante dos motivos das atitudes e escolhas, até as más ou inadequadas para si.
Em outras palavras, também tem sido a própria força interna uma importante responsável por problemas vividos ao lidar consigo e com a existência, mesmo que isto não fosse, até então, admitido.
Sendo assim, se é uma própria vontade o que tem dirigido a pessoa, e de um jeito que a si parece ruim ou inadequado, o que lhe cabe é trabalhar no sentido de alterar a orientação interna desta mesma vontade – isto é, de fato, autodomínio –, orientando-se para o que lhe pareça um melhor jeito de ser.
Com a vantagem de, agora, por meio da interpretação astrológica arquetípica de feição psicológica clínica, conhecer parcela importante dos próprios vetores inconscientes, entender melhor o que deu origem a tais dinamismos e vislumbrar a possibilidade de alterar o estado geral de coisas em sua vida, desde que queira e com este objetivo se comprometa com firmeza.
O novelo de dinâmicas inconscientes deve ser deslindado, os conteúdos afetivos que dão sustento a este emaranhado devem ser liberados, e as memórias, desejos e frustrações que ali residem devem ser conhecidos, assumidos ou superados, para alterar hábitos de comportamento de forma sustentada.
Num conjunto de afazeres que não é nada fácil, já que a parte inconsciente da mente humana resiste até onde consegue a mudanças, e modificar-se é indispensável ao desenvolvimento pessoal.
Por isto, usualmente se evidencia a utilidade do acompanhamento por um experiente especialista na delicada tarefa de participar do crescimento interno de pessoas, e este especialista costuma ser o psicoterapeuta, seja psicólogo ou psiquiatra.
Acompanhando-a, auxiliando-a, amparando-a e a incentivando enquanto a pessoa rememora, revive, analisa, integra e supera, o especialista, seja ele terapeuta de que modalidade terapêutica for, serve de companheiro de viagem no itinerário da pessoa por si no resgate de seus verdadeiros valores e propósito, em geral abandonados, distorcidos ou negados no correr da existência.
Rumo ao que foi, desde o início e sem que o soubesse com clareza, sua finalidade no plano geral da existência.





[1] Os arquétipos causadores das instâncias, que são as funções essenciais da mente, estes são sempre ativados na ontogenia, por caracterizarem a filogenia da espécie humana, para darem origem, no indivíduo, ao Ego, à Sombra, à Persona, ao Animus (ou Anima) e ao Self, além de outras características mentais tipológicas, como introversão e extroversão. Eu os chamo de “arquétipos funcionais”, já que determinam o surgimento de funções mentais específicas.
Outros arquétipos, próprios de tipos variados de vivência afetiva fundamental (porque derivados de experiências típicas humanas), ativam-se ou não em cada pessoa segundo sua destinação, induzindo, se ativados, um perfil individual próprio de personalidade e comportamento, conforme fatores simultâneos confluem para isto. Estes, eu denomino “arquétipos conteudísticos”, porque são cocausadores de conteúdo (nas instâncias).
[2] Isto, sugiro e analiso em Astrologia Arquetípica e comportamento, de Ptolomeu a Jung na teia do mundo.

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