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31 de jul. de 2020

A aproximação entre Planetas que jamais acontece


Em uma palestra no XXI Simpósio Nacional e XII Internacional de Astrologia do SINARJ – Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro, realizado em outubro de 2019, importante profissional de Astrologia afirmou: “Quando os planetas se aproximam, eles desequilibram o sistema solar. Por que? Porque sai do centro. O centro do sistema descentraliza e isto desequilibra e causa problemas para a Humanidade”.

Debatia-se Astrologia Mundial e as Conjunções zodiacais simultâneas e mútuas que ocorreriam em 2020 entre Júpiter, Saturno e Plutão no final do Signo de Capricórnio, e os efeitos que isto teria sobre os fenômenos no planeta Terra e na Humanidade. Daí, falar-se, e deste jeito, em “aproximação entre os Planetas”.



Vou por enquanto deter-me apenas na primeira oração do que foi dito: “Quando os planetas se aproximam, eles desequilibram o sistema solar”.

O que a afirmação busca explicar? Que os Planetas mantêm um certo nível de equilíbrio cósmico dinâmico que se compromete quando eles se “aproximam”, por fazerem Conjunção zodiacal entre si, chegando a desequilibrar o centro do sistema.

Dito assim, parece que está se raciocinando sobre corpos com matéria e gravidade, os quais, ao “se aproximarem”, geram efeitos uns sobre os outros e, com isso, “desequilibram o sistema solar”, isto é, o sistema em que eles estão, com o Sol ao centro e todos orbitando em torno: “O centro do sistema [que se supõe ser o Sol, já que é do sistema solar que se falou] descentraliza e isto desequilibra e causa problemas para a Humanidade”.

Parece muito lógico... não fosse o fato de que os Planetas (isto é, os astros, já que se falou em “sistema solar”) não se aproximam entre si quando ocorre uma Conjunção zodiacal entre os seus símbolos e, por isso, não há como ser gerado efeito objetivo algum de desequilíbrio sobre o que quer que seja e nem como causarem nada.

O que se pode chamar de “aproximação” é apenas o acercamento, no Zodíaco, de símbolos que um dia foram elaborados com base nos Planetas, o que não gera “desequilíbrio no sistema solar” e nem em sistema nenhum, já que a aproximação matemática de dois símbolos em um círculo imaginário não resulta em energia alguma nem exerce efeito sobre qualquer coisa que não seja na esfera da competência semiótica humana, feita de imagens que significam algo.

Quando ouço afirmações como estas, inevitavelmente penso no registro que fiz no meu mais recente livro, Astrologia em diálogo com a Ciência e a Fé:

“Não obstante eu venha chamando atenção desde 1989, como o fiz em O simbolismo astrológico e a mente humana, para o fato evidentíssimo – até, mesmo, segundo os procedimentos da própria Astrologiade não se tratar de energias de corpos siderais causando os acontecimentos terrestres e, dentre estes, as ocorrências corporais, emocionais, sentimentais e intelectivas humanas, toda vez que menciono isto em eventos de astrólogos deparo com uma surda resistência (senão aversão, mesmo, reação afetiva que parece indicar que um ponto sensível foi ferido), por irresistível apego ao modelo astrológico convencional: energia dos astros.

Naquela mesma década Liz Greene afirmava em A Astrologia do Destino, referindo-se ao simbolismo astrológico:

Não se trata de compulsão planetária; os planetas simplesmente refletem, ou são símbolos de, um padrão existente no homem e na mulher interiores, orquestrado através da experiência da vida pelo arquétipo que representa a essência de sua individualidade” (itálico meu).

Ainda assim, 30 anos passados [...] não cessa a proliferação de artigos e livros e cursos e palestras de Astrologia referindo-se aos Planetas como sendo fatores causais objetivos”.





Com o que, também, não cessam afirmações que, decerto sem perceber, violam princípios fundamentais da realidade na elaboração de raciocínios e exposição de conhecimentos, preso que se fica da pressuposição (meramente ideológica) de que aquilo que é denotado pela Astrologia são fenômenos decorrentes de efeitos objetivos dos corpos siderais.

Vejamos alguns detalhes, com certa paciência.

 

O Zodíaco

Há aproximadamente 4,6 bilhões de anos surgiu o Sol e, logo após, o sistema solar. Desde aquela inimaginavelmente longínqua época, os Planetas giram em torno do Sol, em diferentes órbitas elípticas, ora se afastando, “empurrados” pela inércia de movimento, ora se aproximando, “atraídos” pela força gravitacional do Sol (é mais complexo, mas resumo assim).

Sobre a Eclíptica, que é a trajetória que o Sol parece fazer em volta da Terra (já que só a-pós Copérnico se passou a considerar que é a Terra que gira em torno do Sol), os mesopotâmios conceberam no século 5 AEC o Zodíaco e dividiram este círculo em 12 segmentos de igual tamanho (30º), que conhecemos como Signos (Áries, Touro, Gêmeos, etc.).

John M. Steele é um historiador das Ciências Exatas da Antiguidade, na universidade norte-americana Brown University. Ele é especialista em história da Astronomia, com foco particular na Astronomia Babilônica.

Em um de seus artigos, ele explica desta maneira:

“O desenvolvimento do zodíaco foi um evento importante na história da astronomia e astrologia babilônica. Na astronomia, o zodíaco forneceu uma estrutura matemática uniforme dentro da qual os corpos celestes, em particular a lua, o sol e os cinco planetas, podiam ser localizados [...] Essa estrutura matemática simplificou bastante o cálculo dos fenômenos astronômicos. Dentro da astrologia, o zodíaco abriu toda uma gama de novas possibilidades para fazer associações entre o reino terrestre e o celeste.

O desenvolvimento do zodíaco ocorreu em algum momento da Babilônia durante o final do século V a.C. [...] O conceito de zodíaco subsequentemente circulou pelo Oriente próximo, sendo transmitido ao Egito e ao mundo grego, de onde se espalhou para a Índia e depois da Índia para a China e outras partes do leste da Ásia, enquanto no Oeste se tornou uma parte padrão da astronomia grega, islâmica e europeia.

[...] É importante esclarecer a distinção entre o zodíaco e as constelações zodiacais. As constelações zodiacais são um conjunto de constelações através das quais o sol, a lua e os planetas se movem [...] Todas as constelações são construções humanas, projeções feitas sobre o grande número de estrelas visíveis a olho nu, distribuídas no céu noturno. As constelações são, portanto, culturalmente dependentes – culturas diferentes organizarão as estrelas em padrões diferentes e as nomearão de coisas diferentes –, embora, como qualquer conhecimento astronômico, as tradições de definição e nomeação de constelações possam transitar entre culturas” (itálicos meus).

Germano Bruno Afonso, por exemplo, físico brasileiro que é Doutor e Pós-Doutor em Astronomia de Posição e Mecânica Celeste, e Especialista em Arqueoastronomia indígena, ensina que os índios brasileiros veem uma Cobra na constelação que chamamos de Escorpião e, uma Ema, entre as constelações de Escorpião, Lobo e Cruzeiro do Sul.






“Em termos modernos [continua John Steele], as constelações zodiacais são uma série de constelações distribuídas em torno de uma banda centrada na Eclíptica através da qual a lua, o sol e os planetas se movem. Podemos chamar isso de banda zodiacal. O zodíaco é uma divisão matemática uniforme da banda zodiacal em doze partes de igual comprimento, cada uma com 30°, que podemos chamar de signos zodiacais (ou signos do zodíaco). Ao contrário das constelações zodiacais, os signos zodiacais são do mes-mo tamanho e não têm espaços entre eles. Assim, enquanto os limites das constelações podem ser vistos no céu noturno imaginando linhas entre as estrelas, os limites dos signos zodiacais são definidos matematicamente e não podem ser vistos diretamente no céu”.

Claro! Se o Zodíaco é algo que existe apenas por haver a capacidade humana de imaginação e cálculo matemático, ele não é algo objetivo que possa ser visto no céu. Ademais, não se deve esquecer que o que vemos não são as próprias estrelas das constelações, como se elas estivessem ali pertinho da Lua ou, mesmo, dos Planetas.

O que vemos são apenas pontos de luz, a luz que muitíssimos anos atrás as estrelas emitiram, de tão distantes que elas estão. O Cruzeiro do Sul, por exemplo, que está a 7.700 anos-luz da Terra, pode ter até desaparecido há milênios, mas sua luz continua chegando até nós.

 

É tudo, e apenas, imagem

Do Zodíaco, diz-se que os astros, entre os quais os Planetas, registrados neste ou naquele segmento do Zodíaco, estão em Áries ou em Touro ou em Gêmeos, etc., mas, em verdade, eles não estão em um algo chamado “Áries” ou “Touro” ou “Gêmeos”.

São apenas ocorrências de representação zodiacal simbólica e, não, fenômenos objetivos com energia característica (a energia de Áries, a energia de Touro, a energia de Gêmeos, etc., todas diferentes entre si, como se costuma supor), dando-se o mesmo com as constelações, que só existem por conta da capacidade humana de imaginação e fantasia.



Do jeito que nos acostumamos a falar, parece que cada constelação é uma certa área espacial do cosmo através da qual um Planeta pode transitar, seguindo sua órbita, como se fosse um patinador deslizando sobre o gelo ou nadador subaquático atravessando a água. Mas não é assim, e mesmo no caso delas é tudo imaginação e produto da mente.

Compare: Saturno está em órbita a 1,4 bilhão de quilômetros do Sol, enquanto Nashira (Gamma Capricorni), a principal estrela da constelação de Capricórnio, está situada a 1,3 quatrilhão de quilômetros do Sol, ou uma distância 920.000 vezes maior.



No cosmo, o que podemos ver à noite é o ponto de luz de Nashira, que, juntamente com os pontos luminosos de outras estrelas, compõe aquilo que as culturas mesopotâmicas resolveram chamar “constelação de Capricórnio” – e cada cultura o fez a seu modo.



Muito, muito, muito lá em cima, a 1,3 quatrilhão de quilômetros de nós, está a estrela que compõe o que, vista daqui com outras (e em variadas distâncias entre si e com a Terra), chamamos de “constelação de Capricórnio”. Bem mais abaixo, a “apenas” 1,28 bilhão de quilômetros da Terra, está a órbita de Saturno. Estamos aqui, mais abaixo ainda, na Terra, olhando para o céu e vendo Saturno se movimentando entre determinados pontos de luz, cujo conjunto chamamos de “constelação de Capricórnio”. Aí, pensamos: “Saturno está transitando na constelação de Capricórnio... Que bacana!”.

Todavia, entre ambos, Planeta e estrelas, há mais de um quatrilhão de quilômetros e, portanto, é só na nossa imaginação e com base no que visualizamos, que Saturno parece transitar na constelação de Capricórnio, como se a constelação fosse um algo objetivo existente no cos-mo sobre o que, ou através do que, Saturno transitasse.

Para uma comparação em termos humanos e ficar mais fácil lidar com estas imensas distâncias todas, que são as cósmicas, imaginemos uma pessoa de pé na calçada de um edifício que tenha o dobro da altura do Burj Khalifa, o edifício mais alto do mundo, que tem 160 andares e 828 metros de altura em Dubai.

Aqui em baixo, a apenas 1 milímetro do solo está a órbita de Júpiter, logo acima do dedão do pé da pessoa está a órbita de Saturno, pouco abaixo do osso de seu tornozelo está a órbita de Plutão e lá no alto, bem no alto, muito alto mesmo, acima do topo do “duas vezes o Burj Khalifa”, a 1.700 metros de altura, está Nashira (Gamma Capricorni), a estrela cujo ponto luminoso ajuda a compor no céu o que chamamos constelação de Capricórnio.



Então, voltando à Astrologia, em certas épocas os símbolos zodiacais de Júpiter, Saturno e Plutão matematicamente se aproximam no Zodíaco (em 2020, os três símbolos vão estabelecendo simultâneas e mútuas Conjunções zodiacais no final do Signo de Capricórnio), com isso significando várias coisas, enquanto os astros continuam em suas órbitas cósmicas em torno do Sol como o fazem há milhares de milênios, mantendo distâncias imensas entre si e sem que estas Conjunções zodiacais signifiquem qualquer “aproximação entre planetas”, provoquem qualquer “desequilíbrio no sistema solar” ou “causem problemas para a Humanidade”.

Como o romano Marcus Manilius, contemporâneo de Ptolomeu, escreveu no século 1:

“[Os astros] não variam nem o seu pôr nem o seu retorno ao céu, mas cada um, constante, eleva-se de acordo com o seu tempo específico e conserva ordenados os momentos do seu nascer e do seu ocaso. Nada, nessa máquina tamanha, é mais admirável do que sua regularidade e o fato de que tudo obedece a leis constantes. Em lugar nenhum uma perturbação lhe causa dano; nada, em parte alguma, é levado a vagar por um caminho mais extenso ou mais breve ou a mudar a direção do seu curso. O que mais pode haver de aparência tão complicada e, no entanto, de movimentação tão regular?”.

Afinal, se os próprios Planetas Júpiter, Saturno e Plutão se aproximassem, como vamos vendo os seus símbolos se justaporem em Conjunções zodiacais em 2020, isto significaria que, aí, sim, o sistema solar inteiro teria entrado em colapso e não estaríamos mais aqui para ler este texto ou assistir a palestra alguma!

O problema, a meu ver, no que foi dito: “Quando os planetas se aproximam, eles desequilibram o sistema solar. Por que? Porque sai do centro. O centro do sistema descentraliza e isto desequilibra e causa problemas para a Humanidade”, é que declarações como estas, especialmente quando feitas por quem tem destaque como profissional de Astrologia, não resistem à confrontação com os dados objetivos do mundo e comprometem a imagem da Astrologia como conhecimento de boa qualidade.

E, o que é pior, fazem por tornar desnecessária qualquer busca de explicação verdadeira sobre as razões da efetividade da Astrologia, já que parecem esclarecer o que ocorre e desestimulam a questão: se não é por efeito de energias dos planetas, o que é que, de fato, então, faz com que a Astrologia funcione, já que se sabe que ela funciona?

Em decorrência, não se avança em busca de melhor conhecimento.



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