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8 de nov. de 2014

ASTROLOGIA, SERIAL KILLERS E DETERMINAÇÃO

Vejo no grupo Papo Astral uma postagem sobre Astrologia e serial killers, que foi repostada na linha do tempo de meu Facebook. http://astrologiadadepressao.com/2014/02/17/os-signos-e-os-serial-killers/

“Como complemento, gostaria de destacar o posicionamento de Marte nos mapas desses assassinos. Áries, Escorpião e Capricórnio estão fortemente presentes e, embora pessoas desses signos não sejam todas assassinas, é curioso observar que todos eles tem ligação direta com Marte – o planeta da guerra e da agressividade. Quando esses signos se destacam em uma carta, é bacana observar as condições do planeta, afinal, quando está debilitado e tensionado por aspectos, Marte pode desencadear um comportamento agressivo que pode chegar a níveis extremos, dependendo do caso”.

De imediato, pensei em quanto de mal à imagem da Astrologia abordagens como estas causam. Menos por se tratar de serial killers e, mais, pela livre e ligeira associação determinista entre os símbolos astrológicos e certas formas de comportamento humano.


O post elenca vários serial killers, tanto homens quanto mulheres. Todavia, quando se calcula a Carta natal de vários deles (ao menos Karla, Mira, Andrei, Ted e John, entre os citados, segundo os dados natais que coligi pelo Google, pois o post mal informa), nada se verifica no Signo de Capricórnio de todos: nenhum Planeta. Em dois destes, dá-se o mesmo em Áries: nenhum Planeta, e em outros dois, nada em Escorpião. Quanto aos aspectos de Marte, ao menos nas Cartas natais destes cinco, pois para mais não tive paciência, verifica-se o que se nota em inúmeras Cartas natais referentes a pessoas comuns: nada propriamente especial.

O que penso merecer reflexão não é a ligeireza da afirmação que os próprios dados natais parecem desmentir. Afinal, quantos dos que leram tal post se deram ao trabalho de calcular Carta por Carta, para cotejar com o que foi categoricamente afirmado? O que julgo ser necessário refletir é sobre a inclinação generalizada, tão comumente associada à Astrologia, de sempre haver relação causal inequívoca: “tal coisa redunda em tal coisa, e ponto”, como se não se tratassem de fenômenos multideterminados e, portanto, derivados de múltiplas cocausas.

Gandhi apresentava em sua Carta natal Marte em Escorpião oposto a Plutão, e ao mesmo tempo a Júpiter que estava conjunto a Plutão, e nem por isto foi furioso psicopata ou megalômano: bem ao contrário, celebrizou-se por propor e defender de modo coerente uma política de resistência passiva, sem a violência de espécie alguma. Martin Luther King tinha Sol em Capricórnio oposto a Plutão, e Saturno oposto a Marte, e nele se destacava a mansidão, como líder religioso. A Carta natal do papa Francisco apresenta uma oposição entre Marte e Plutão, no mesmo homem que, ao invés de fazer impor sua vontade, imediatamente após ser eleito pediu à população reunida aos pés da varanda central da Basílica de São Pedro que rezassem por ele, pois precisaria muito.
Psicopatas? De que estou falando? Estou mencionando a inclinação, em muitas pessoas, também derivada da superstição sobre a energia dos planetas causando coisas, de deduzirem traços pessoais essenciais a partir deste ou daquele símbolo astrológico específico, o que é um perigo para a compreensão e um enorme desrespeito à riqueza humana de possibilidades.

O fenômeno humano é muito vasto do que uma rápida descrição consegue apontar e, portanto, a análise precisa ser muito mais respeitosa e cheia de cautela. Sabemos que para algo ocorrer, não bastam as causas necessárias, é preciso também haver causas suficientes.
Para exemplificar, acompanhe o argumento de “A Filosofia da Astrologia”:

“Suponha que, para ocorrer o fato “A”, são causas necessárias “x”, “y” e “z”. Mas que nenhuma delas é, sozinha, causa suficiente, pois para o fato ocorrer necessita-se de, ao menos, duas destas causas, atuantes simultaneamente ou em sucessão.

A interpretação da Carta astrológica natal alega ter apontado a existência da causa “y” – e, mesmo assim, o fato não ocorreu. Isto, entretanto, não indica que a Astrologia falhou em seu intento. A régua de seu grau de sucesso seria aferir se, sendo “y” uma causa necessária para o fato, a Astrologia efetivamente indicou ou não, em sua tarefa interpretativa de símbolos, a existência da causa “y”, conforme os padrões astrológicos verificados, de modo probabilisticamente significativo. Se sim, e se em um percentual significativo dos casos sim, ela funciona. O restante, a ocorrência ou não do fato, deixa-se para o aspecto aleatório e ou multideterminado dos fenômenos.

Assim como o senso comum supõe haver um tipo de energia dos corpos celestes que se correlaciona causalmente a específicos eventos mentais e ou corporais humanos, este mesmo senso comum habituou-se a associar padrões astrológicos constatados em Cartas astrológicas a específicos comportamentos e ou fenômenos, donde os erros de indução (que é o procedimento lógico mais habitual no nível do senso comum).
Esta indução opera assim: já que nos casos do comportamento ou fato “A” costumou se verificar a existência do padrão astrológico “x”, todas as vezes em que ocorrer o padrão astrológico “x” deve-se esperar que ocorra o comportamento ou fato “A”.
E isto não é obrigatoriamente verdade, à medida que outros fatores podem ser mais determinantes do que o indicado pelo padrão astrológico “x” na ocorrência de “A”, por mais que o padrão “x”, se constatado, indique uma condição necessária”.

Eu dizia, acima, haver concorrência simultânea de cocausas, isto é, causas diferentes e igualmente determinantes, mesmo que cada qual de um jeito, que devem ocorrer em conjunto para haver o efeito constatado.
Uma delas, certamente, é a capacidade de livre arbítrio do ser humano, que lhe dá a dignidade da escolha. Por isto Jean-Paul Sartre pôs na boca de seu personagem Genet a afirmação: “o importante não é o que fazem de nós, mas, sim, aquilo que nós mesmos fazemos do que fizeram de nós”.

Embora saibamos que por vezes isto não é possível, pois uma análise não ingênua da vida mostra ser assim – às vezes, não dá para escolher –, nada indica a prevalência do “determinismo astrológico”.

Até quando vigorará esta postura supersticiosa e mecanicista, a de crer que símbolos causam algo?

25 de out. de 2013

A violência contra as mulheres tem facetas diferentes

A ONU acaba de lançar uma nova campanha mundial pelo término da violência contra as mulheres.
O foco é muito amplo e vai além da violência física, como é necessário.



A campanha aborda múltiplas formas de agressão, como a negação de direitos humanos, da liberdade de ter uma profissão e até de ser tratada como igual nas igrejas. Pois agredir fisicamente é somente a forma mais rude e tosca, embora não a menos prejudicial, de violência.

A propensão à violência contra as mulheres costumeiramente radica em causas profundas dentro do psiquismo do homem que as agride (física ou moralmente), razão pela qual não se trata apenas de educação ou melhor socialização: trata-se da necessidade imperiosa de alterar dinâmicas inconscientes que os dominam.

Se não forem alteradas estas dinâmicas, “inesperadamente” a violência irrompe – “ele era tão educado e respeitoso comigo até agora, não sei bem o que houve...” – ou “vaza” no dia-a-dia por meio de continuadas avaliações preconceituosas e ou atitudes de claro desrespeito humano.

A interpretação de uma Carta natal astrológica com a metodologia da Astrologia Arquetípica oferece valiosas pistas para este trabalho tão necessário, pois não poucas vezes se identifica, em homens propensos à violência contra as mulheres, um quadro inconsciente coalhado de ressentimentos, raiva e medo, de origem arquetípica e reforçados em torno da figura materna, no decorrer da primeira infância.

Conforme o quadro verificado, pode-se recompor, para um trabalho terapêutico, qual conjuntura atravessada em primeira infância, em geral reforçada pela atitude paterna em relação à própria mulher, estabeleceu a propensão futura à violência. Torno a dizer, física ou moral.

É preciso um cuidado adicional: a inclinação de muitas mulheres em atraírem para convívio, ou se deixarem atrair por, homens com esta triste propensão: sua expectativa inconsciente é de que isto de qualquer forma ocorrerá, por mais que se afirmem indignadas ou entristecidas ao ocorrer, razão pela qual realizam a profecia inconscientemente estabelecida.

Por isso se submetem, seja à agressão física ou moral, mesmo podendo objetivamente não fazê-lo desde a primeira vez.

Neste sentido, não é apenas argumento machista a afirmação de haver mulheres que “gostam” de apanhar. Não que “gostem”, no sentido de preferência consciente, mas é que terminam atuando de modo cúmplice da violência do companheiro: são violentadas e aceitam, tornam a ser violentadas e uma vez mais aceitam...

Ambos, o homem que agrida e a mulher que aceite, são frutos de igual dinâmica.

Quanto aos símbolos, Marte, Saturno, Sol e Lua por costume estão envolvidos por quadraturas ou oposições, bem como muitas vezes Saturno em Casa X indica profundo ressentimento contra o feminino, cheio de medo e raiva.

Se Urano ou Netuno estiverem também presentes nestes conjuntos simbólicos, traços sádicos (e, em decorrência, masoquistas, no gênero oposto) em geral se manifestam.

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