Temática:

#AdaptaçãoPessoal (1) #Anima (2) #Animus (2) #Arquétipos (2) #Arte (1) #Ascendente (2) #AstrologiaArquetípica (49) #AstrologiaClinica (24) #AstrologiaComportamento (7) #AstrologiaHindu (5) #AstrologiaMundial (9) #Autoafirmação (1) #Autoconhecimento (24) #Beleza (1) #CamposMorfogênicos (1) #Carma (1) #Ciência (7) #Coletivo (1) #ConflitosÍntimos (1) #ConvívioGrupal (1) #Criança (1) #Criatividade (1) #Cristianismo (5) #Cursos (1) #Demarcação (1) #Destino (2) #Devoção (1) #DiagnósticoDePersonalidade (9) #Disciplina (2) #Ego (1) #Entrevistas (4) #Espiritualidade (3) #Estratégia (1) #Eventos (1) #Experimento (1) #Extroversão (1) #Fé (6) #Filho (1) #Filosofia (8) #FilosofiaDaAstrologia (7) #Genialidade (1) #HarmoniaPessoal (1) #Homoafetividade (1) #Identidade (1) #Individuação (1) #Inovação (2) #Inteligência (2) #Interpretação (1) #Introversão (1) #Intuição (2) #Jung (4) #Livre-arbítrio (1) #Magia (1) #Mapa infantil (1) #MenteECorpo (1) #Mitologia (7) #Paciência (1) #Paranormalidade (2) #Pensamento (2) #Pensamento Complexo (1) #Planejamento (1) #Poesia (1) #Preconceito (3) #Profissão (3) #Psicologia (6) #PsicologiaTranspessoal (3) #Psicoterapia (7) #PsiqueColetiva (4) #ReformaÍntima (2) #RelacionamentoPessoal (6) #Religião (5) #Resiliência (1) #Romantismo (1) #Sadismo (2) #Semiótica (4) #Sensação (1) #Sentimento (1) #Sex-appeal (1) #Sexismo (1) #Sexualidade (1) #Sinastria (2) #Solidão (1) #Superego (2) #TécnicaAstrológica (12) #Teologia (3) #TiposHumanos (1) #VidasPassadas (2) #Yang (1) #Yin (1)
Mostrando postagens com marcador #Psicologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #Psicologia. Mostrar todas as postagens

25 de jun. de 2022

Um enorme potencial à disposição de psicoterapeutas

 


Em seus estudos Jung interessou-se pela Astrologia como recurso de descrição das dinâmicas psíquicas inconscientes e de seus desdobramentos comportamentais, sejam as conflitivas, sejam as que sugerem potenciais.

Um dos primeiros indicadores deste interesse está em uma carta escrita por ele a Sigmund Freud em junho de 1911, na qual relata: “minhas noites estão sendo ocupadas com a Astrologia (...) Até agora consegui algumas coisas notáveis que lhe parecerão totalmente inacreditáveis (...) Parece, por exemplo, que os signos do zodíaco são figuras caracterológicas, isto é, símbolos da libido que representam as qualidades típicas da libido”.

Bem adiante, em 1947 ele escreveu ao indiano B. V. Raman: “como psicólogo, interesso-me principalmente na luz particular que o horóscopo lança sobre certas complicações caracterológicas. Em casos de diagnóstico psicológico difícil, geralmente utilizo um horóscopo para ter um ponto de vista adicional, de um ângulo totalmente diferente. Devo dizer que muitas vezes descobri que os dados astrológicos elucidavam certos pontos que de outra forma eu não teria sido capaz de entender. De tais experiências, formei a opinião de que a astrologia é de particular interesse para o psicólogo”.

E, em 1951, estabeleceu em Aion – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo: “o significado fundamental do horóscopo é que, ao mapear as posições dos Planetas e suas relações entre si (Aspectos), junto com a distribuição dos Signos do Zodíaco (...), ele fornece uma imagem, primeiro do psíquico e, então, da constituição física do indivíduo. Ele representa, em essência, um sistema das qualidades originais e fundamentais do caráter de uma pessoa e, portanto, pode ser considerado um equivalente [simbólico] da psique individual”.

 

Por esta razão, em 1991 escrevi em Astrologia Clínica, um método de autoconhecimento que “até mesmo entre os estudiosos de Astrologia ou de Psicologia não costuma haver uma compreensão mais bem organizada de como estes dois vastos campos de conhecimento se interpenetram e enriquecem-se mutuamente. A Astrologia, oferecendo instrumental de detecção [e descrição] do que ocorre no interior da psique e, por consequência, na vida objetiva e subjetiva da pessoa; a Psicologia, oferecendo explicações conceituais sobre o dinamismo mental e a origem dos conteúdos da psique, atribuindo sentido e categorias descritivas mais precisas àquilo que o astrólogo percebe por meio do conjunto de símbolos que utiliza. Pense bem: é uma bênção dispor de um instrumento que propicie clara percepção do que ocorre nos desvãos do inconsciente, aos quais nem a consciência da própria pessoa tem acesso: isto, a Astrologia Clínica proporciona. Mas é igual bênção dispor de um arcabouço conceitual que propicie entender melhor, e como encaminhar de modo mais adequado, o que é então percebido: isto, a Psicologia oferece”.

 Na primeira parte do que eu disse: “clara percepção do que ocorre nos desvãos do inconsciente”, referia-me à descrição que é possibilitada pela Astrologia em seu exercício de retratar a base originária e as dinâmicas específicas da psique de alguém. Na segunda parte: “arcabouço conceitual que propicie entender melhor, e como encaminhar de modo mais adequado”, referia-me ao pensar e fazer próprios das psicoterapias (seja terapia profunda, breve ou de aconselhamento), para os quais o psicólogo (ou psiquiatra) é preparado, independente da Escola de Psicologia ou método de intervenção e técnica que adote em seu dia a dia de atendimento psicoterapêutico.

 

Segundo minha prática pessoal, exercida desde os anos 1980, tanto o psicoterapeuta quanto o paciente se beneficiam grandemente de uma descrição psicodiagnóstica com base em interpretação de Carta Natal astrológica, ao ajudá-los a descrever com mais clareza e precisão a paisagem inconsciente de caraterísticas e memórias que reside na psique do paciente desde a primeiríssima infância, e influencia sua memória e vontade sem que a consciência o saiba, possibilitando ao paciente, com o apoio do psicoterapeuta, uma atuação inteligente e decisiva sobre o seu panorama interno (e desdobramentos comportamentais) a partir dos valores ético-morais que adota, buscando se reformar intimamente para melhor.

A isto me proponho, também: ao trabalho conjunto com psicoterapeutas, independente da Escola ou do método que adotem, gerando para eles material cognitivo sobre a psique de seus pacientes, que permita potencializar os resultados de atendimento terapêutico que esteja em curso ou por se iniciar.

Meu trabalho, no que concerne ao uso da Astrologia para identificação e descrição de dinâmicas ideo-afetivas e emocionais, pode ser realizado também no caso de se tratar de relações interpessoais, indo além, então, de uma pessoa isolada: o paciente. Para psicoterapeutas que trabalhem com aconselhamento ou terapia familiar, a Astrologia Arquetípica oferece a possibilidade de identificar e descrever as dinâmicas inconscientes, inatas e ou condicionadas, que se estabelecem entre as pessoas envolvidas e costumam presidir a relação existente entre elas, no que diz respeito a dinâmicas conflitivas e à estimulação de potenciais.

É um enorme e riquíssimo conjunto de possibilidades.






27 de ago. de 2019

A NOBREZA DA ASTROLOGIA E SUA TRANSVERSALIDADE


No post anterior a este eu perguntei:
“Afinal, quando as Ciências se aproximarem da Astrologia, como é bom que isto ocorra, que modelo teórico de Astrologia será apresentado para conhecimento e avaliação?”
Uma vez mais indagaram-me por que motivo eu insisto tanto em aproximar a Astrologia das Ciências, quase como se julgasse ser necessário haver a aprovação delas para que reconhecesse a veracidade efetiva do conhecimento astrológico.
Não é isso. Como assumi em Astrologia em diálogo com a Ciência e a Fé:
“Nunca vivi um instante sequer de dúvida sobre a efetividade da Astrologia desde ter podido conhecê-la [em 1984], razão possível por que, quanto eu mais seguia fiel a seu lado, ela tenha sido tão generosa comigo, aos poucos entregando-me uns seus segredos”.
Nem poderia ser de outro jeito, já que, como a ela se referiu o pedagogo, filósofo e teólogo alemão Philip Melanchthon:
“Uma coisa é certa: a ciência da Astrologia é valiosa e verdadeira, é uma coroa da espécie humana e, toda a sua honrosa sabedoria, um testemunho de Deus”.


Melanchthon era o braço-direito de Martinho Lutero, havia sido o redator da Confissão de Augsburg em 1530 (um dos dois principais documentos oficiais da Reforma Protestante) e foi ferrenho defensor dos aspectos positivos da Carta Natal de Lutero, contra as interpretações negativas feitas pelos astrólogos papais durante os confrontos religiosos com a Reforma.
Para lembrar outra afirmação digna de grande destaque, cerca de 300 anos antes o bispo dominicano S. Alberto Magno escrevera em Speculum Astronomiæ, obra por ele elaborada em 1260 a pedido do Papa Alexandre IV:
“Nenhuma ciência humana alcança esta ordenação do universo [tão] perfeitamente como a ciência dos julgamentos das estrelas o consegue”.
S. Alberto Magno, que foi professor de S. Tomás de Aquino na Universidade de Paris, na época o mais importante centro europeu de Teologia, é considerado um dos mais completos e competentes pensadores cristãos do século 13.


Também, segundo ele, como registrei em Astrologia e Cristianismo em diálogo:
“As indicações celestes nada mais são senão a divina providência”.
Em decorrência, havendo aproximação entre as Ciências e a Astrologia, parece-me que as Ciências é que mais ganharão com isto, por espantoso que possa parecer, ao dizer assim hoje em dia.
Mas este ganho em conhecimento não ocorrerá se não houver a aproximação – e, daí, a minha intenção de favorecê-la.
Ludwig von Bertalanffy foi um biólogo austríaco que em meados do século 20 revolucionou os modelos científicos de compreensão da existência ao propor uma teoria geral dos sistemas. Ele julgava que uma teoria como esta ofereceria um conjunto de conceitos que, por ser integrado, poderia unificar as várias disciplinas científicas que, a partir do século 17, foram ficando cada vez mais isoladas e fragmentadas.
Assim sendo, suas contribuições foram além da Biologia e se estenderam a Administração, Cibernética, Filosofia, História, Psicologia, Psiquiatria e Sociologia.


De acordo com o que ele demonstrou em Teoria Geral dos Sistemas, sua teoria poderia ser tida como uma “ciência geral da totalidade”:
“O paralelismo de concepções gerais ou, até mesmo, de leis especiais em diferentes campos é uma consequência do fato de que estas se referem a ‘sistemas’ e de que determinados princípios gerais se aplicam aos sistemas, independentemente de sua natureza” [isto é, da natureza dos sistemas].
Como a ele se referiu Thaddus Weckowicz, Professor Emérito de Psiquiatria e Psicologia da Universidade de Alberta, no Canadá, que trabalhou com Bertalanffy na década de 1960:
“Existem dois tipos de pensadores, estudiosos e cientistas. Os primeiros são os pioneiros que propõem novas idéias revolucionárias, apontam novos rumos para desenvolvimentos científicos e intelectuais, criam novos paradigmas da ciência e da erudição, mas deixam os detalhes para os outros. Os segundos são aqueles que seguem o novo rastro, realizam cuidadosa experimentação e pesquisa dentro do paradigma estabelecido, e elaboram as formulações precisas de teorias em um domínio particular de conhecimento. Ludwig von Bertalanffy, que era tanto um cientista quanto um estudioso, representava o primeiro tipo: ele era um pioneiro.
[...] Eventos físicos, mentais e sociais podem parecer intrinsecamente distintos, mas são organizados em sistemas, que são governados pelo mesmo conjunto de leis sistêmicas. A unidade dos sistemas é a base da unidade da natureza, apesar da variedade caleidoscópica das aparências externas.
[...] Ele criticava o culto ‘cartesiano’ do pensamento analítico que prevalecia na ciência e na filosofia modernas. Ele sugeriu que [o modelo cartesiano] deveria ser substituído pela noção de sistemas holísticos. Em alguns aspectos, ele se retirou do paradigma cartesiano-galileu da ciência, que se tornou predominante a partir do século XVII, e retomou o paradigma neoplatônico do século XVI”.
Mais propriamente, porém, aquilo que o neoplatônico Nicolau de Cusa (1401-1464) pensara, para quem “tudo está dentro de um outro tudo”, feito “sistemas dentro de sistemas”.


No tempo de S. Alberto Magno (século 13) e do Cardeal Nicolau de Cusa (século 16) Astronomia e Astrologia ainda andavam juntas, sendo vistas como diferentes facetas de um mesmo maravilhoso conjunto de conhecimentos.
Por esta razão S. Alberto Magno escreveu na abertura de Speculum Astronomiæ:
“Há duas grandes sabedorias e ambas são definidas pelo nome astronomia [...] A segunda grande sabedoria, também chamada astronomia, é a ciência do julgamento das estrelas, que estabelece a relação entre filosofia natural e metafísica”.


Além disso, naquele período distante, o que hoje se denomina “conhecimento científico” era chamado de “Filosofia Natural” (ou da Natureza). Para aquela forma de ver, portanto, como ocorria na Europa (e nos países de cultura árabe), se “a ciência do julgamento das estrelas estabelecia a relação entre filosofia natural e a metafísica”, era normal e desejado que a Astrologia estivesse presente e ativa em todos os mais importantes centros desenvolvedores de conhecimento, já que de algum modo se relacionava a todas as coisas humanas e não-humanas.
Por isso era assunto de nobres, reis, papas e sábios.



Quanto à causação das coisas e suas mudanças no âmbito terrestre, no livro Meteorologica (Os corpos celestes) Aristóteles explicara assim:
“Este mundo [o sublunar, ou terrestre] tem necessariamente uma certa continuidade com os movimentos superiores. Consequentemente, todo seu poder e ordem provêm deles. Pois o princípio originador de todo movimento é a causa primeira. Além disso, esse corpo é eterno e seu movimento não tem limite no espaço, mas é sempre completo, enquanto todos os outros corpos possuem regiões separadas que limitam uma à outra. Assim, devemos tratar fogo e terra e os elementos semelhantes a eles [ar e água] como as causas materiais dos acontecimentos neste mundo (significando o material que é sujeito e é afetado), mas devemos assinalar causalidade, no sentido de princípio originador do movimento, à influência dos corpos que se movem eternamente” [que são os Planetas, compostos pelos Elementos Fogo, Terra, Ar e Água, que, por sua vez, eram originados do Éter].
É necessário realçar que, quando Aristóteles falava em “princípio originador do movimento”, e foi na filosofia aristotélica que Ptolomeu embasou sua visão sobre a Astrologia, ele não estava se referindo à ideia de deslocamento de algo pelo espaço (daqui para ali), como se poderia entender, mas, mais significativo, estava aludindo à passagem de potência (possibilidade de existir) a fato (existência expressa) e, por isso, atribuía aos corpos celestes o papel de causa efetiva dos acontecimentos terrestres: “devemos assinalar causalidade, no sentido de princípio originador do movimento, à influência dos corpos que se movem eternamente” (que são os Planetas).


E como os Elementos Fogo, Terra, Ar e Água não eram propriedades físico-químicas e, sim, fatores metafísicos, já que, após terem emanado do Éter, estavam presentes em tudo, fosse coisa, evento ou pessoa, entende-se que S. Alberto Magno viesse a afirmar que “a ciência do julgamento das estrelas estabelece a relação entre filosofia natural e metafísica”, isto é, entre o que ocorresse no âmbito terrestre (e era objeto de filosofia) e a fonte imaterial da ocorrência de tudo (o efeito dos Planetas).
Tudo! Neste sentido oniabrangente, basta ver como Ramón Lull, um dos mais expressivos pensadores catalães da Baixa Idade Média – com uma vasta obra que repercutiu em Giovanni Pico della Mirandola, Cornelius Agrippa von Nettesheim, Giordano Bruno, John Dee (astrólogo que era o Conselheiro da Rainha Elizabeth I, na Inglaterra) e até Gottfried Wilhelm Leibniz, polímata e filósofo alemão que viria a ser figura proeminente na história mundial da Matemática (concebeu o cálculo diferencial) e da Filosofia –, se referiu em 1267 à Astrologia em O novo tratado de Astronomia:
“[…] coisas que pertencem ao julgamento da astronomia, como a saúde, a enfermidade, a vida, a morte, a alegria, a ira, a riqueza, a pobreza, a abundância, o repouso, o trabalho, o empreendimento de uma viagem, o matrimônio, a procura de uma casa, o vento, a chuva, o gelo, o latrocínio, a guerra, a paz, o lucro, a perda, a vitória, a derrota, ir a uma terra e não a outra, buscar uma determinada coisa de um homem e não outro, ou em um tempo e não em outro, banhar-se, fazer uma sangria, tomar um remédio, empregar-se em um ofício e não em outro, ou em um ofício mais do que em outro, pedir ou não pedir o conselho, a segurança, o perigo, dar, falar, silenciar, ir, ficar, aprender e ensinar; e assim com as demais coisas que dizem respeito ao acaso e ao favorecimento, ou ao desfavorecimento”.


Como se vê, na prática a Astrologia era exercida, tal qual viria a ser expressado no século 20 por von Bertalanffy, como “uma ciência geral da totalidade”.
A interpretação competente dos símbolos astrológicos podia orientar tudo: caça e pesca, coleta, agricultura e pecuária, artesania têxtil, de metais ou de madeira, o comércio, a engenharia e arquitetura da época, as relações humanas, as atividades do dia a dia, o manejo do poder e as artes da guerra e da saúde: em 1405, os estudantes de Medicina na Universidade italiana de Bolonha, a mais antiga universidade do mundo, tinham de fazer um curso de quatro anos sobre Astrologia.


Desde o início a Astrologia era verdadeiramente transversal, na medida em que os diagnósticos e os prognósticos que ela elaborava serviam para todas as áreas da existência, e desta transversalidade, que parecia quase propiciadora de onisciência, brotava a sua imagem de rara nobreza, com apoio em seus símbolos polissêmicos.
Só não se sabia exatamente como ela funcionava e, por isso, sua funcionalidade era atribuída a fatores metafísicos de caráter divino, já que algo parecia operar, além das causas materiais ou objetivas percebidas, mas nada se conhecia deste “algo”.
O conhecimento humano teve de avançar muito para chegar na concepção de arquétipos ou campos morfogênicos como fatores imateriais e intemporais naturais de cocausação (por um longo período tidos como metafísicos), já que foi aos efeitos deles que a Astrologia desde o começo parece ter se referido de modo padronizado.


Pois, se estou correto no que penso, o saber astrológico é o resultado acumulado de milênios a fio de observação, registro e associação de peculiares jeitos de ser das coisas, dos acontecimentos e das pessoas, a típicos padrões zodiacais, já que os padrões zodiacais eram matematicamente calculáveis e os efeitos associados a eles eram probabilisticamente previsíveis em qualquer período de tempo desejado e todo objeto de análise (fosse coisa, evento ou pessoa), para conferência posterior sobre se haviam ocorrido ou não os efeitos esperados quando da ocorrência dos padrões zodiacais e ajuste fino das relações de coincidência significativa verificada, para maior apuro na detecção.
Por isso, embora a tendência interpretativa da Astrologia Ocidental no século 20 venha sendo crescentemente determinada pelos conhecimentos e explicações das Ciências da Consciência e do Comportamento, referindo-se mais e mais, portanto, aos fatos da mente humana (individual e coletiva), a Astrologia continua a poder ser inteiramente transversal, aplicando-se de modo competente em múltiplos outros campos de conhecimento, seja nas Ciências da Natureza, seja nas Ciências Sociais.


“Eventos físicos, mentais e sociais podem parecer intrinsecamente distintos, mas são organizados em sistemas, que são governados pelo mesmo conjunto de leis sistêmicas”, explicou Weckowicz, como vimos no início.
Se admitirmos que as ocorrências da existência manifesta são em grande medida consequências do efeito cocausal de arquétipos, ou campos morfogênicos, atuando sobre as condições enérgico-materiais das coisas, dos acontecimentos e das pessoas no continuum tempo-espaço, e que a Astrologia Arquetípica propicia a identificação dos efeitos específicos dos arquétipos sobre qualquer tipo de fenômeno – embora não dos próprios arquétipos, em si, já que eles não são perceptíveis por método algum conhecido –, a Astrologia é um ferramental deveras precioso para uma percepção mais apurada da dinâmica das coisas na existência.
Em associação livre ao conceito de von Bertalanffy, penso que os arquétipos são “os princípios gerais [que] se aplicam a sistemas, independentemente de sua natureza” (embora cada arquétipo, ou conjunto articulado de arquétipos, se faça sentir conforme à natureza específica do sistema).
Por tal razão, se é possível identificar quais poderão ser os efeitos probabilísticos de cada um destes princípios gerais, ou arquétipos, segundo o que denotam os símbolos astrológicos ou arranjos simbólicos a eles associados (conforme o tipo de objeto sob análise), é possível diagnosticar quais ocorrências enérgico-materiais poderão se dar em coisa, evento ou pessoa, e quando, e onde.
Então, se vimos que, no dizer de S. Alberto Magno, “nenhuma ciência humana alcança esta ordenação do universo [tão] perfeitamente como a ciência dos julgamentos das estrelas o consegue” – e em meu entender é a todas as coisas de alguma forma ordenadas que S. Alberto diz que a Astrologia se refere e, por isso, ele afirma “universo” –, é nesta imensa riqueza de possibilidades de detecção e compreensão por meio da Astrologia Arquetípica que eu penso que as Ciências, todas elas, podem se abeberar, desde que queiram.
Mas como querer, ou até perceber que podem fazê-lo, enquanto se mantiverem distantes?





16 de out. de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA E TRANSDISCIPLINARIDADE, NO APOIO AO ATENDIMENTO PSICOTERAPÊUTICO

(Segunda parte)

V.
Como expliquei melhor em O simbolismo astrológico e a psique humana, em meados de década de 80 enfrentei a necessidade de metodizar a entrevista devolutiva da interpretação, para que a multiplicidade de informações oferecida pela Carta astrológica natal pudesse compor uma narrativa organizada em linguagem leiga (isto é, deliberadamente sem jargão astrológico) que favorecesse o recobro dos dados, mais tarde, quando o consulente estivesse em trabalho terapêutico com quem o acompanhava, ou fosse à busca de solução, caso ainda não estivesse em terapia. Este era – e é aqui – o meu foco.
Em decorrência de meu estudo, optei por diferenciar duas classes distintas de conteúdos psíquicos que podem ser revelados pela interpretação da Carta astrológica natal, referidas a uma pessoa em particular porque calculada e elaborada, a Carta, com base na data, horário e local de seu nascimento:
a. fatores psicodinâmicos tipológicos inatos, causados por arquétipos funcionais[1] (e talvez cocausados por campos mórficos[2]) que atuaram na conformação desta psique; estes fatores eu passei a denominar “traços estruturais de personalidade”;
b. fatores psicodinâmicos condicionados de comportamento pessoal, causados por imagens arquetípicas decorrentes de arquétipos conteudísticos e por particularidades do ambiente de primeira e segunda infâncias; estes fatores eu passei a denominar “traços conjunturais de personalidade”, na medida em que passaram a vigorar na mente inconsciente por introjeção de dados da conjuntura vivida pela criança, como resultado de imagens arquetípicas internas que condicionaram a percepção das características objetivas e subjetivas do ambiente de primeira e segunda infâncias.



 


Ao falar de “ambiente de primeira e segunda infâncias”, identificável pelo conjunto simbólico da Carta astrológica natal, já estou a falar de sincronicidade, e o importante aqui é realçar que, da mescla dos produtos subjetivos da percepção realizada pelo indivíduo, como foi matizada pelas imagens arquetípicas, com as principais características objetivas do meio ambiente infantil, como são indicadas pela Carta astrológica natal, é que decorreu a quase totalidade dos conteúdos mentais pessoais inconscientes mais determinantes no indivíduo.
Tais duas diferentes classes de conteúdo merecem abordagens distintas pelo indivíduo, pois os traços estruturais, que são tipológicos e perenes, requerem “gerenciamento adequado de aspectos inatos”, ao passo que os traços conjunturais, que são fruto de treinamento por exposição a modelos, podem ser alvo de “desprogramação” ou descondicionamento, por catarse e ressignificação.
Catarse, porque as experiências vividas deixam resíduos inconscientes dos diferentes estados emocionais experimentados, instaurando a memorização de sentimentos que costumam estar na base de hábitos pessoais de comportamento e precisam ser revividos quando se almeja o descondicionamento.
Ressignificação, porque o mundo e a relação pessoal com ele são, antes de tudo, elaboração da mente por meio de imagens – “a psique é o eixo do mundo”, declarou Jung –, entre as quais as associadas a palavras e situações; a ressignificação, por conseguinte, permite redesenhar a imagem das relações existentes e redefinir a postura do indivíduo frente a elas.

VI.
Na prática interpretativa, passei a deduzir os traços estruturais de personalidade, alguns tendo experiência modulável pelo gênero (homem/mulher), a partir de cinco conjuntos de símbolos da Carta astrológica natal:
§  a Polaridade do Ascendente, do Sol e da Lua, avaliando o grau de predominância da instância anímica (Animus em mulher e Anima em homem) na dinâmica psíquica inconsciente da pessoa;
§  o total de Planetas por Elemento (Fogo, Terra, Ar ou Água), avaliando o balanceamento entre Intuição, Sensação, Pensamento e Sentimento;
§  o total de Planetas por Modalidade (Cardinal, Fixa ou Mutável), avaliando o grau de intensidade de estamina, resiliência e adaptabilidade;
§  o total de Planetas por Hemisfério (Noturno e Diurno), avaliando a ponderação de Introversão e Extroversão;
§  o total de Planetas em Signos de Polaridade positiva ou negativa, avaliando o grau de predominância das funções mentais dos hemisférios cerebrais direito ou esquerdo.
Para quem pratica Astrologia e vem fazendo esta contagem segundo métodos convencionais, informo que, diferente de contagens astrológicas por Modalidade, Elemento e Dignidade ou Debilidade, que dão pontuações variadas para distintos Planetas e para o Ascendente conforme o Signo em que estão, o que faço é contar de modo simples, um a um, como cedo pude aprender com o trabalho da astróloga norte-americana Betty Lundsted, sem pontuar o Ascendente e nem dar pontuação variável conforme seja Sol, Lua ou quaisquer Planetas.
Já os traços conjunturais de personalidade, eu os deduzo principalmente a partir de:
§  o Signo solar, isto é, o Signo em que está o Sol na Carta astrológica natal, e as principais narrativas míticas associáveis ao Signo;
§  a localização dos Planetas por Signos;
§  os Aspectos estabelecidos pelos Planetas entre si e com Ascendente e Meio do Céu (sendo ASC « MC o eixo estrutural simbólico de Persona);
§  a localização de Saturno por Casa astrológica.
Como a prática interpretativa destaca o que pareça mais significativo ou determinante a cada vez, outros detalhes podem ser identificados caso o trabalho se dê em níveis mais minuciosos, inclusive verificando a posição de Saturno, por Trânsito, e da Lua, por Direção Secundária Direta e Conversa (ambos, por Casa e Signo), quando da consulta de interpretação, para contextualizar no tempo a faceta arquetípica da teia do mundo em destaque: “qual é o mote, agora?”, que está sendo vivenciado (por aquela pessoa, segundo sua Carta).
A descrição pode ser enriquecida se for adicionalmente interpretada a localização de cada Planeta por Casa astrológica, além de por Signo, bem como fatores como Roda da Fortuna, Quíron, Lilith ou Nodos lunares, que são símbolos astrológicos secundários que optei por não discutir aqui.
No decorrer da interpretação, de mesmos arranjos simbólicos se extraem diferentes significados, conforme a passagem da narrativa que está sendo elaborada e expressa, sendo que esta simultaneidade de sentidos é uma das mais preciosas riquezas que a simbólica astrológica oferece, mas requer do astrólogo habilidade treinada, tanto na interpretação, quanto na elaboração e exposição (prudente) da narrativa devolutiva.

 
Se no quadro acima mencionei “espírito”, não estou atribuindo o que se costuma intitular “espiritual” a fator natural supra, infra ou intrapsíquico e, menos ainda, utilizando o termo em conotação religiosa. Estou apenas me referindo a fatores ordenadores imateriais de âmbito macro, derivados de campos mórficos e ou de campos psicoides, como se usa o termo em o “espírito do tempo”, denotando os dinamismos cocausadores de forma que determinam e definem o que ocorre no tempo e no espaço em cada fase ou instante.
Tão vasta é a variedade possível de informação, que a primeira regra de interpretação ensina: dentre todos os significados que se pode deduzir dos fatores-símbolo de uma Carta astrológica natal, selecione os que são mais decisivos do que se pode descrever e, com estes, construa a composição narrativa.
Já estará bom para o que se pretende.

VII.
Destacando que aqui falo especificamente do trabalho interpretativo que leva à psicoterapia ou enriquece a terapia que já esteja em andamento, Jung alertou em Psicologia e Alquimia que o simples conhecimento intelectual não basta, pois só é eficaz uma rememoração que seja ao mesmo tempo vivenciada de novo. Muitas coisas irresolvidas ficam para trás devido ao rápido escoar dos anos e ao afluxo invencível do mundo que acaba de ser descoberto. Mas não nos livramos destas coisas, apenas nos afastamos delas. Se muito tempo depois evocarmos novamente a infância, nela encontraremos muitos fragmentos vivos da própria personalidade, que nos agarram, e somos invadidos pelo sentimento dos anos transcorridos. Esses fragmentos permanecem num estágio infantil e por isso são intensos e imediatos. Só por meio de sua religação com o consciente adulto poderão ser corrigidos, perdendo seu aspecto infantil.
Neste exato sentido Fernando Pessoa poetou:
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou.
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
quero ir buscar quem fui onde ficou.
Como frisei em Astrologia Arquetípica, autoconhecimento e espiritualidade, a interpretação da Carta astrológica natal, se feita com propósito diagnóstico [isto é, visando enriquecer o cenário da psicoterapia], longe de ser unicamente um momento de mera discussão intelectual de dados e informações sobre a pessoa e sua destinação arquetípica e história vivida, é um encontro pleno de intensa afetividade, graças à vigorosa intervenção do próprio ato de interpretação, podendo ser um rito de passagem para outro estado de si, motivo pelo qual desde 1988 eu adoto a expressão ‘Astrologia Clínica’.
Enquanto recebe as informações que a Carta astrológica natal vocaliza por meio do intérprete, e podendo participar ativamente da dinâmica de desvelamento de si por meio da apresentação de questões e testemunhos durante a entrevista devolutiva (do conteúdo interpretado), a pessoa que consulta o astrólogo é levada a aferir, no íntimo, o que até aquele momento veio vivendo na existência:
§  o que obteve, frente ao que desejou;
§  o que atingiu, face ao que pretendeu;
§  as razões interiores de suas inadequações;
§  a confirmação de potenciais até então mal percebidos, mas pressentidos como verdadeiros e estando à espera de brotamento favorável.
Ou, como o astrólogo franco-americano Dane Rudhyar afirmou em A planetarização da consciência, se em decorrência do conhecimento propiciado pela interpretação astrológica a pessoa percebe que seus acontecimentos vitais, que até então haviam parecido cabalmente caóticos e sem sentido; se pode sentir uma direção e uma finalidade coerentes em sua vida, e como tem estado bloqueando esta compreensão do significado, da orientação e da finalidade, a Astrologia foi efetiva e pode levar a ir adiante.

VIII
O fato, se torna o processo interno mais compreensível por quem labuta para se conhecer ou entender melhor, e se reformar intimamente, ampliando a possibilidade de interferir (como der) nas próprias atitudes e comportamentos, e nas dinâmicas e conteúdos inconscientes que lhes dão origem, também costuma instalar um processo intenso de busca de alternativas de solução para o que foi detectado.
Tendo compreendido as razões de tantas de suas atitudes, inclusive as tidas por si como inadequadas ou inconvenientes, e tendo percebido – quiçá pela primeira vez – que pode interferir de modo ativo nos próprios dinamismos inconscientes para atenuar a compulsividade de comportamentos, a pessoa identifica e compreende melhor um panorama interior que é fruto de sua história formativa e, em imensa medida, veio determinando as condições de sua existência, por comportamento (íntimo ou manifesto) e sincronicidade (eventos associados por significado).
Mais ainda: é levada a enfrentar o dolorido fato de ter sido ela mesma, em ampla medida e de certa forma, cúmplice de suas dificuldades, mesmo se involuntariamente, já que reside em suas vontades inconscientes parte importante dos motivos das atitudes e escolhas, até as más ou inadequadas para si.
Em outras palavras, também tem sido a própria força interna uma importante responsável por problemas vividos ao lidar consigo e com a existência, mesmo que isto não fosse, até então, admitido.
Sendo assim, se é uma própria vontade o que tem dirigido a pessoa, e de um jeito que a si parece ruim ou inadequado, o que lhe cabe é trabalhar no sentido de alterar a orientação interna desta mesma vontade – isto é, de fato, autodomínio –, orientando-se para o que lhe pareça um melhor jeito de ser.
Com a vantagem de, agora, por meio da interpretação astrológica arquetípica de feição psicológica clínica, conhecer parcela importante dos próprios vetores inconscientes, entender melhor o que deu origem a tais dinamismos e vislumbrar a possibilidade de alterar o estado geral de coisas em sua vida, desde que queira e com este objetivo se comprometa com firmeza.
O novelo de dinâmicas inconscientes deve ser deslindado, os conteúdos afetivos que dão sustento a este emaranhado devem ser liberados, e as memórias, desejos e frustrações que ali residem devem ser conhecidos, assumidos ou superados, para alterar hábitos de comportamento de forma sustentada.
Num conjunto de afazeres que não é nada fácil, já que a parte inconsciente da mente humana resiste até onde consegue a mudanças, e modificar-se é indispensável ao desenvolvimento pessoal.
Por isto, usualmente se evidencia a utilidade do acompanhamento por um experiente especialista na delicada tarefa de participar do crescimento interno de pessoas, e este especialista costuma ser o psicoterapeuta, seja psicólogo ou psiquiatra.
Acompanhando-a, auxiliando-a, amparando-a e a incentivando enquanto a pessoa rememora, revive, analisa, integra e supera, o especialista, seja ele terapeuta de que modalidade terapêutica for, serve de companheiro de viagem no itinerário da pessoa por si no resgate de seus verdadeiros valores e propósito, em geral abandonados, distorcidos ou negados no correr da existência.
Rumo ao que foi, desde o início e sem que o soubesse com clareza, sua finalidade no plano geral da existência.





[1] Os arquétipos causadores das instâncias, que são as funções essenciais da mente, estes são sempre ativados na ontogenia, por caracterizarem a filogenia da espécie humana, para darem origem, no indivíduo, ao Ego, à Sombra, à Persona, ao Animus (ou Anima) e ao Self, além de outras características mentais tipológicas, como introversão e extroversão. Eu os chamo de “arquétipos funcionais”, já que determinam o surgimento de funções mentais específicas.
Outros arquétipos, próprios de tipos variados de vivência afetiva fundamental (porque derivados de experiências típicas humanas), ativam-se ou não em cada pessoa segundo sua destinação, induzindo, se ativados, um perfil individual próprio de personalidade e comportamento, conforme fatores simultâneos confluem para isto. Estes, eu denomino “arquétipos conteudísticos”, porque são cocausadores de conteúdo (nas instâncias).
[2] Isto, sugiro e analiso em Astrologia Arquetípica e comportamento, de Ptolomeu a Jung na teia do mundo.

4 de set. de 2015

O USO DA ASTROLOGIA PARA CRIAR MELHOR SEU FILHO

No início de agosto de 2015 a Escola de Astrologia Gaia realizou a “XVI Astrológica” na cidade de São Paulo, com três dias de palestras e debates entre astrólogos, estudantes de Astrologia e interessados no tema.
Entre os palestrantes esteve a Mestre em Direito, Psicanalista e Astróloga Camila Colaneri, cujo tema capturou minha atenção: “Vênus e Marte no mapa de crianças”.
Mantendo-se focada no uso da Astrologia como recurso de orientação psicopeda-gógica para a desafiadora tarefa de criar filhos, Camila realçou um aspecto da Astrologia que poucas vezes é destacado: mais do que recurso para “prever futuro” (será médico? será bailarina? terá problemas de saúde? vou ter netos?), a Astrologia é preciosa ferramenta para lidar com o presente imediato da criança, desde bebê.
Ampliando as chances de ser feito o que é o mais adequado para a própria criança, independente da história dos pais e de seus desejos, em geral projetados nos filhos e interferindo (nem sempre positivamente) nas dinâmicas do bem educar.


Camila Colaneri: Saber como a criança percebe o mundo e responde a ele é fundamental para gerar e oferecer os estímulos mais adequados à própria criança.













AA – Quais principais aspectos infantis podem ser identificados e descritos pela interpretação da Carta natal?
Camila Colaneri – A interpretação astrológica permite entender, em termos gerais, mas profundos, como a criança forma seu pensamento, como elabora seus sentimentos e como lida com suas emoções, o que dá preciosos indicadores de como lidar com ela e apoiar suas tarefas de crescimento. Isto se estende aos aspectos comportamentais, já que a Carta natal informa se a criança é mais Extrovertida ou Introvertida, ativa ou passiva, dependente ou independente, eufórica ou melancólica, e assim por diante. Esta interpretação requer desde a análise da distribuição de Elementos na Carta, para definição de Temperamentos, até a avaliação da Carta natal como um todo.

AA – Para quem já estuda ou pratica Astrologia, você poderia resumir os principais fatores simbólicos da Carta natal que devem ser observados?
Camila Colaneri – Insisto: é preciso, sempre, olhar o todo! Mas dá para salientar principais pontos. Pela análise dos Elementos, verifica-se o temperamento da criança. O Ascendente indica o primeiro olhar sobre o mundo e o nascimento. A Lua indica o padrão de necessidades emocionais, a nutrição e a relação com a mãe. O Sol aponta o padrão de Ego e de elaboração da identidade, assim como o pai. Mercúrio denota os modos naturais de aprendizado e comunicação, naquela criança, Júpiter sinaliza suas formas de expansão e busca de oportunidades, em contraste com Saturno, que costuma apontar os principais desafios e os pontos de disciplina. Urano denota o jeito de expressão de originalidade e busca de autonomia. Netuno nos fala da capacidade de inspiração e busca de transcendência – sim, a criança já vive isto –, e Plutão sinaliza as práticas de exercício de poder e de estabelecimentos de vínculos. Quanto às Casas, é necessário analisar a I (autopercepção), a III (irmãos/amiguinhos), IV (estrutura geral do lar), V (padrão expressivo de identidade) e VI (dinâmicas corporais predominantes). É importante, também, identificar os Trânsitos sobre os principais pontos da Carta natal a cada fase.

AA – A partir de qual idade da criança os pais se beneficiam da interpretação astrológica de sua Carta natal?
Camila Colaneri – Desde o nascimento. Consegue-se perceber pela situação da Lua na Carta natal, por exemplo, como a nutrição se dará, como a criança perceberá a mãe, como o contato entre mãe e bebê se estabelecerá, como foram os momentos do parto e como isto já pode estar influenciando a criança. Claro, que os três primeiros meses de vida do bebê são muito intensos, tanto para ele, que está lutando para sobreviver em um meio desconhecido, como para a mãe, que está tentando se encaixar em um novo paradigma. Mas os benefícios da interpretação astrológica já podem ser sentidos desde o início da vida da criança.

AA – Aspectos psicoemocionais dominantes costumam ser vividos projetivamente por meio de ritos pessoais (ou “comportamentos habituais”). No caso de crianças, também nas brincadeiras. Pode dar alguns exemplos de como isto se verifica em uma criança, conforme indicam os dados de sua Carta natal, e explicar como saber tal coisa pode ajudar os pais na boa utilização e orientação dos potenciais da criança?
Camila Colaneri – Para pegar o tema da minha palestra, a posição do planeta Vênus por Signo, por exemplo, permite ter claro como aquela criança significa para si mesma o dar e receber afeto, quais são as situações que lhe dão mais prazer, o que ativa seus desejos e o que ela valoriza. Isto torna possível identificar do que ela gosta de brincar. Veja o caso de uma criança com Vênus em Câncer. Provavelmente ela gostará de brincar de casinha ou de fazer comidinha, ou algo que simbolize isto, no caso de um menino, pois tem o “cuidar” como importante forma de valor. Então, esta seria uma boa sugestão para os pais, ou mesmo um terapeuta, sobre como ajudar aquela criança a se expressar brincando. Por sua vez, identificar o ambiente em que ela está inserida e como ela capta sua atmosfera familiar, olhando a Casa IV e a Casa VI, pode indicar que tipo de ambiente lhe seria mais familiar, para que ela sinta mais segurança em suas manifestações. E olhar a Lua seria bem interessante, pois indica o jeito natural da criança de expressar suas emoções.

AA – Em geral, os pais se preocupam com saúde corporal e boa alimentação. O que a interpretação da Carta natal oferece, no tocante a estes temas?
Camila Colaneri – Pela Carta natal podemos observar as questões de saúde, sim, olhando Ascendente, Sol e Casa VI, para verificar quais são os pontos mais vulneráveis daquela criança e quais cuidados devem, então, ser adotados. Por exemplo, uma criança com mais Elemento Ar na Carta natal pode ter tendência a vulnerabilidade no sistema respiratório. Indicar isso aos pais já auxilia na prevenção, pois podem evitar ter em casa, por exemplo, carpetes e outros objetos que acumulem poeira. Os aspectos nutricionais também são muito relevantes e, neste caso, costumo olhar a Lua, pois ela se relaciona à informação sobre o que nutre a criança, e também o planeta Vênus, que pode apontar que tipo de alimentação dará mais prazer à criança. Por exemplo: uma criança com Lua em Áries pode não ter muita paciência para se alimentar, mas se tiver uma Vênus em Touro, pode gostar de alimentos com paladar mais marcante e apresentar forte tendência a gostar de doces.

AA – Em que medida o ambiente infantil da criança, e por extensão a relação entre os pais e de cada um destes com ela, costuma estar refletido na Carta natal da criança? Em quê, ajuda saber isto?
Camila Colaneri – Saber como é o ambiente da criança é essencial para perceber como ela irá reproduzir no ambiente externo o que percebe em casa. Se, por exemplo, a criança tem uma Vênus bem posicionada na Casa IV, provavelmente o ambiente doméstico lhe é agradável e ela pode até ter dificuldade de querer sair de algo que lhe é tão prazeroso. Pode, então, gostar de ficar em casa, de trazer os amigos para o seu universo particular e de cultuar a família. Já uma criança que tenha Urano na Casa IV pode sentir seu ambiente doméstico como um lugar mais agitado, impessoal e propício a mudanças repentinas. Assim, esta outra criança pode gostar de ficar fora de casa e de sair mais, já que seu ambiente doméstico não lhe propicia o sentimento de acolhimento. Interpretar o Sol, a Lua e as Casas III, IV, VI e X, por sua vez, ajuda a ver como a criança percebe e sente pais e parentes: com quem tem mais afinidades, com quem tem mais dificuldades, qual o papel preponderante de cada um dos pais, como seu cotidiano se estabelece. Exemplo: uma criança com Lua em Touro e Sol em Gêmeos pode perceber a mãe como presente e ativa cuidadora, tendo de outro lado um pai que é mais agitado e desapegado. Cada um tem um papel na formação daquela criança: provavelmente a mãe fica com a parte estrutural de oferecer o “pé no chão”, impor rotinas e dar noção de materialidade, enquanto o pai tem a função de educar e trazer informação, agitação e novos conteúdos. Quando os pais definem seus papéis, tais como são percebidos pela criança, eles tendem a atuar melhor.

AA – A criança se desenvolve em fases (motora, emocional, cognitiva, relacional, etc). O que a Carta natal da criança oferece de informação específica sobre os diferentes estágios de desenvolvimento infantil, para uma melhor adequação dos pais?
Camila Colaneri – É muito importante entender em qual estágio de desenvolvimento a criança se encontra, para oferecer uma orientação mais pontual e útil. Assim, se a criança está na fase oral, ou até aproximadamente os dois anos, é importante analisar com cuidado a Lua, pois estaremos falando de formas de nutrição que estão vinculadas a amamentação e ao contato direto com a mãe. Já na fase anal, um pouco depois, é preciso atentar para o sistema motor por meio do planeta Marte (associado a músculos), assim como para a Casa VIII (associada a retenção/eliminação e excreção). A análise de Marte é importante na fase em que a criança começa a sentar e, posteriormente, a andar, isto é, se será mais fácil ou mais lento em seu caso, por exemplo. A partir dos dois anos e meio também é preciso estar atento à fase de comunicação (Mercúrio) e de sociabilização (Vênus), e assim por diante.

AA – Inclusive na educação da criança, seja no lar, seja na escola?
Camila Colaneri – Sim. Quanto à educação e aprendizagem, a interpretação astrológica pode ser bem útil para pais e educadores. É de grande auxilio saber como a criança aprende, pois isto varia conforme a criança: o que é objeto de interesse, como se estabelece sua comunicação, que tipo de inteligência ela desenvolve melhor (corporal, espacial, lógica), que facilidades ou dificuldades tem no processo de aprendizado e qual ambiente educacional mais a favorece. Assim, devemos analisar Mercúrio, Júpiter, Casa III e Casa IX. Para ilustrar, imagine uma criança com Mercúrio em Peixes. Para ela, a linguagem simbólica é de grande valia no processo de aprendizagem, pois ela capta melhor imagens e sons, o lúdico, o imaginário. Já, uma criança com Mercúrio em Virgem requer um aprendizado mais estruturado em sistemas, que seja mais prático e organizado.

AA – E quando a criança apresenta dificuldades de aprendizagem?
Camila Colaneri – O astrólogo pode mostrar aos pais que tipo de dificuldade é aquela ou, até, qual é a origem desta dificuldade. Analisando a situação do planeta Mercúrio, por exemplo, podemos analisar quais são as formas de aprendizado às quais a criança melhor responde. Também podemos saber se aquela criança é mais dispersiva, se é muito ansiosa, se precisa de um tempo a mais para assimilar os conteúdos, se lida bem ou mal quando é pressionada, e assim por diante. Esta seria uma interação incrível no sistema educacional – talvez utópica, mas de grande valia –, pois o que ainda se verifica é falta de integração entre os sistemas de ensino estabelecidos e as diversas formas de aprendizado conforme a criança. Algumas crianças aprendem inventando e experimentando, enquanto outras precisam de uma ordem mais clara, com regras precisas. Seria positivamente impactante na alfabetização saber como a criança aprende melhor. Interessa observar os trânsitos sobre Mercúrio na época do desenvolvimento da fala ou da alfabetização, também.

AA – Isto seria útil para um professor ou terapeuta de crianças, não?
Camila Colaneri – Claro! Com relação ao professor, a Astrologia pode ajudar a entender as principais características de cada aluno em particular, desde o comportamento até às formas de aprendizado que melhor se adequam a cada um, bem como as dinâmicas de sociabilização próprias de cada criança. Saber, por exemplo, se a criança tende a se isolar, precisando de um tempo maior para si, pode ajudar na sua integração, ao invés de impor algo forçado e, mesmo, prejudicial a ela. Para os terapeutas, poderia ser um trabalho consorciado de incrível alcance, pois o astrólogo consegue diagnosticar traços da personalidade infantil que, muitas vezes, demoram sessões e sessões de terapia para aparecer. Desta forma, esta integração poderia facilitar o atendimento e ampliar os resultados positivos.

AA – É cada vez mais comum a separação e o novo casamento dos pais, a formação de famílias multiparentais e, mais recente, a formação de casais homoafetivos com filhos adotados ou biológicos de um dos pais ou mães. Em casos assim, o que a interpretação da Carta natal da criança pode oferecer à família, para a dinâmica de bem preparar e apoiar a própria criança?
Camila Colaneri – A interpretação da Carta natal sempre ajuda, independente do tipo de família que se forma. Para a criança, o que vale é ter um ambiente constituído de amor, proteção e respeito, não importando sob qual condição seus pais se estabeleceram: se são dois homens, duas mulheres, se é adoção, se é mãe solteira ou uma família constituída de vários casamentos. A interpretação da Carta natal oferece para a família a percepção da criança sobre sua própria individualidade e sempre pode ser de grande auxilio em seu desenvolvimento emocional e cognitivo. Creio que quando alguém procura o astrólogo com a solicitação de que interprete a Carta de sua criança, ali já existe uma relação de amor, pois se está querendo perceber esta criança como um ser individual e buscando entender como auxiliar aquela particular criança neste mundo e dentro do seu contexto de família e história. Já é um grande passo de conscientização familiar.

AA – Por que, segundo você, “o atendimento infantil é muito delicado de ser feito e, ao mesmo tempo, muito relevante”?
Camila Colaneri – Delicado, porque o astrólogo está lidando com pais que têm suas próprias expectativas com relação aos filhos: eles também foram crianças, carregam memórias positivas e negativas, fazem projeções e trazem a bagagem familiar para o atendimento. É preciso olhar a Carta natal dos pais para ver como a abordagem pode ser mais bem realizada na entrevista de interpretação. Imagine uma mãe com Sol em Câncer que tem um bebê com a Lua em Aquário. Aquela mãe quer dar todo carinho e atenção, pegar seu bebê no colo a todo instante, mas o bebê pode ser mais sensível às vezes em que esta mãe se mantém mais distante. Então, o astrólogo tem de ter delicadeza para falar com a mãe sem magoá-la, ajudando-a a compreender que este bebê capta o emocional de maneira mais desprendida e que, se ela for mais “divertida”, mais amiga dele, talvez ele corresponda melhor do que se ela só ficar o tempo todo preocupada em dar comida e em “cuidar”.
E é relevante porque auxilia a entender a criança em sua individualidade, percebendo suas necessidades, suas dificuldades, seus pontos de talento e desenvolvimento, e as características de suas diferentes fases de vida. Como se diz por aí, “criança não vem com manual de instrução, mas a Carta natal pode ser o melhor GPS”.

Translate