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25 de jun. de 2022

Um enorme potencial à disposição de psicoterapeutas

 


Em seus estudos Jung interessou-se pela Astrologia como recurso de descrição das dinâmicas psíquicas inconscientes e de seus desdobramentos comportamentais, sejam as conflitivas, sejam as que sugerem potenciais.

Um dos primeiros indicadores deste interesse está em uma carta escrita por ele a Sigmund Freud em junho de 1911, na qual relata: “minhas noites estão sendo ocupadas com a Astrologia (...) Até agora consegui algumas coisas notáveis que lhe parecerão totalmente inacreditáveis (...) Parece, por exemplo, que os signos do zodíaco são figuras caracterológicas, isto é, símbolos da libido que representam as qualidades típicas da libido”.

Bem adiante, em 1947 ele escreveu ao indiano B. V. Raman: “como psicólogo, interesso-me principalmente na luz particular que o horóscopo lança sobre certas complicações caracterológicas. Em casos de diagnóstico psicológico difícil, geralmente utilizo um horóscopo para ter um ponto de vista adicional, de um ângulo totalmente diferente. Devo dizer que muitas vezes descobri que os dados astrológicos elucidavam certos pontos que de outra forma eu não teria sido capaz de entender. De tais experiências, formei a opinião de que a astrologia é de particular interesse para o psicólogo”.

E, em 1951, estabeleceu em Aion – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo: “o significado fundamental do horóscopo é que, ao mapear as posições dos Planetas e suas relações entre si (Aspectos), junto com a distribuição dos Signos do Zodíaco (...), ele fornece uma imagem, primeiro do psíquico e, então, da constituição física do indivíduo. Ele representa, em essência, um sistema das qualidades originais e fundamentais do caráter de uma pessoa e, portanto, pode ser considerado um equivalente [simbólico] da psique individual”.

 

Por esta razão, em 1991 escrevi em Astrologia Clínica, um método de autoconhecimento que “até mesmo entre os estudiosos de Astrologia ou de Psicologia não costuma haver uma compreensão mais bem organizada de como estes dois vastos campos de conhecimento se interpenetram e enriquecem-se mutuamente. A Astrologia, oferecendo instrumental de detecção [e descrição] do que ocorre no interior da psique e, por consequência, na vida objetiva e subjetiva da pessoa; a Psicologia, oferecendo explicações conceituais sobre o dinamismo mental e a origem dos conteúdos da psique, atribuindo sentido e categorias descritivas mais precisas àquilo que o astrólogo percebe por meio do conjunto de símbolos que utiliza. Pense bem: é uma bênção dispor de um instrumento que propicie clara percepção do que ocorre nos desvãos do inconsciente, aos quais nem a consciência da própria pessoa tem acesso: isto, a Astrologia Clínica proporciona. Mas é igual bênção dispor de um arcabouço conceitual que propicie entender melhor, e como encaminhar de modo mais adequado, o que é então percebido: isto, a Psicologia oferece”.

 Na primeira parte do que eu disse: “clara percepção do que ocorre nos desvãos do inconsciente”, referia-me à descrição que é possibilitada pela Astrologia em seu exercício de retratar a base originária e as dinâmicas específicas da psique de alguém. Na segunda parte: “arcabouço conceitual que propicie entender melhor, e como encaminhar de modo mais adequado”, referia-me ao pensar e fazer próprios das psicoterapias (seja terapia profunda, breve ou de aconselhamento), para os quais o psicólogo (ou psiquiatra) é preparado, independente da Escola de Psicologia ou método de intervenção e técnica que adote em seu dia a dia de atendimento psicoterapêutico.

 

Segundo minha prática pessoal, exercida desde os anos 1980, tanto o psicoterapeuta quanto o paciente se beneficiam grandemente de uma descrição psicodiagnóstica com base em interpretação de Carta Natal astrológica, ao ajudá-los a descrever com mais clareza e precisão a paisagem inconsciente de caraterísticas e memórias que reside na psique do paciente desde a primeiríssima infância, e influencia sua memória e vontade sem que a consciência o saiba, possibilitando ao paciente, com o apoio do psicoterapeuta, uma atuação inteligente e decisiva sobre o seu panorama interno (e desdobramentos comportamentais) a partir dos valores ético-morais que adota, buscando se reformar intimamente para melhor.

A isto me proponho, também: ao trabalho conjunto com psicoterapeutas, independente da Escola ou do método que adotem, gerando para eles material cognitivo sobre a psique de seus pacientes, que permita potencializar os resultados de atendimento terapêutico que esteja em curso ou por se iniciar.

Meu trabalho, no que concerne ao uso da Astrologia para identificação e descrição de dinâmicas ideo-afetivas e emocionais, pode ser realizado também no caso de se tratar de relações interpessoais, indo além, então, de uma pessoa isolada: o paciente. Para psicoterapeutas que trabalhem com aconselhamento ou terapia familiar, a Astrologia Arquetípica oferece a possibilidade de identificar e descrever as dinâmicas inconscientes, inatas e ou condicionadas, que se estabelecem entre as pessoas envolvidas e costumam presidir a relação existente entre elas, no que diz respeito a dinâmicas conflitivas e à estimulação de potenciais.

É um enorme e riquíssimo conjunto de possibilidades.






23 de fev. de 2016

AUTOCONHECIMENTO PARA REFORMA ÍNTIMA

Em meados de década de 1980 enfrentei a necessidade de metodizar a entrevista devolutiva, para que a multiplicidade de informações oferecida pela Carta Natal pudesse compor uma narrativa organizada em linguagem leiga (isto é, sem jargão astrológico) que ordenasse as informações em um cenário roteirizado facilmente identificável e compreensível pela pessoa atendida.
A mente humana está a todo tempo engendrando e contando narrativas, quer para expressar-se, quer para assimilar o que está sendo percebido. É assim que ela funciona.
Portanto, quanto mais possível fosse apresentar as informações da Carta Natal dentro de um ordenamento dinâmico que viesse das fases finais da gestação até a vida adulta, passando pela infância e puberdade, mais fácil seria para a pessoa, depois, aproveitar as informações no trabalho de autoconhecimento para reforma íntima que estivesse desenvolvendo ou pretendendo desenvolver.

Em decorrência de minhas pesquisas, optei por estabelecer duas classes distintas de conteúdos psíquicos que se revelam pela interpretação arquetípica da Carta Natal:
a. fatores psicodinâmicos inatos, que passei a denominar “traços estruturais de personalidade”;
b. fatores psicodinâmicos condicionados, que passei a denominar “traços conjunturais de personalidade”, na medida em que passaram a vigorar por introjeção de dados da conjuntura vivida pela pessoa quando criança, dadas as características do ambiente de primeira infância.
Tais diferentes classes de conteúdos psíquicos merecem abordagens distintas pelo indivíduo, pois os traços estruturais, que são tipológicos, requerem “gerenciamento de aspectos pessoais perenes”, ao passo que os traços conjunturais, por decorrerem de treinamento por exposição a modelos paterno e materno, devem – e podem – ser alvo de “desprogramação” ou descondicionamento, seja em terapia, seja em reforma íntima empreendida por si próprio.

Com este método, por década e meia atendi pessoas interessadas em desvendar os mistérios de sua personalidade, já que tudo decorre da mente: o que somos “aqui fora” em enorme parte depende de como somos “lá dentro”.
Depois, passei a atender indo ao encontro da pessoa e, adiante, passei a atender apenas virtualmente, oferecendo relatórios escritos de interpretação elaborados um a um, isto é, não por software, dada a delicadeza e a intimidade de cada caso.

Se houve uma estrada pela qual a pessoa veio do nascimento até o momento presente de sua vida, relembrar e ressignificar o já vivido, do mais remoto ao atual, seria facilitado se fossem assinalados os principais pontos de referência para o caminho de volta e a retomada de si, sobre os quais a pessoa poderia, então, se debruçar para poder viver um hoje reformado para melhor.
Nisto, busquei ecoar Jung:
"o simples conhecimento intelectual não basta, pois só é eficaz uma rememoração que seja ao mesmo tempo vivenciada de novo. Muitas coisas irresolvidas ficam para trás devido ao rápido escoar dos anos e ao afluxo invencível do mundo que acaba de ser descoberto. Mas não nos livramos destas coisas, apenas nos afastamos delas. Se muito tempo depois evocarmos novamente a infância, nela encontraremos muitos fragmentos vivos da própria personalidade, que nos agarram, e somos invadidos pelo sentimento dos anos transcorridos. Esses fragmentos permanecem num estágio infantil e por isso são intensos e imediatos. Só por meio de sua religação com o consciente adulto poderão ser corrigidos, perdendo seu aspecto infantil".
Ou, como Fernando Pessoa poetou:
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou.
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
quero ir buscar quem fui onde ficou.

No desenvolvimento de um modelo de estrutura narrativa eficiente para apresentar por escrito a interpretação da Carta Natal segundo a Astrologia Arquetípica, fui auxiliado pelo fato de ser jornalista e ter atuado nas três principais funções da imprensa escrita (repórter, redator e editor), enquanto treino de desenvolvimento de competências complementares: coleta de informações, tradução das informações em redações concisas e disposição dos conteúdos redigidos em narrativas gerais contextualizadas.
E de ser escritor, o que facilitou quando por fim passei a interpretar apenas por escrito (graças à Internet): tendo os dados natais da pessoa, ao invés de recebê-la para duas ou três horas de entrevista pessoal passei a enviar um relatório de interpretação para depois responder, também por escrito (e-mail), a dúvidas surgidas ou necessidade de esclarecimento adicional.

16 de out. de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA E TRANSDISCIPLINARIDADE, NO APOIO AO ATENDIMENTO PSICOTERAPÊUTICO

(Segunda parte)

V.
Como expliquei melhor em O simbolismo astrológico e a psique humana, em meados de década de 80 enfrentei a necessidade de metodizar a entrevista devolutiva da interpretação, para que a multiplicidade de informações oferecida pela Carta astrológica natal pudesse compor uma narrativa organizada em linguagem leiga (isto é, deliberadamente sem jargão astrológico) que favorecesse o recobro dos dados, mais tarde, quando o consulente estivesse em trabalho terapêutico com quem o acompanhava, ou fosse à busca de solução, caso ainda não estivesse em terapia. Este era – e é aqui – o meu foco.
Em decorrência de meu estudo, optei por diferenciar duas classes distintas de conteúdos psíquicos que podem ser revelados pela interpretação da Carta astrológica natal, referidas a uma pessoa em particular porque calculada e elaborada, a Carta, com base na data, horário e local de seu nascimento:
a. fatores psicodinâmicos tipológicos inatos, causados por arquétipos funcionais[1] (e talvez cocausados por campos mórficos[2]) que atuaram na conformação desta psique; estes fatores eu passei a denominar “traços estruturais de personalidade”;
b. fatores psicodinâmicos condicionados de comportamento pessoal, causados por imagens arquetípicas decorrentes de arquétipos conteudísticos e por particularidades do ambiente de primeira e segunda infâncias; estes fatores eu passei a denominar “traços conjunturais de personalidade”, na medida em que passaram a vigorar na mente inconsciente por introjeção de dados da conjuntura vivida pela criança, como resultado de imagens arquetípicas internas que condicionaram a percepção das características objetivas e subjetivas do ambiente de primeira e segunda infâncias.



 


Ao falar de “ambiente de primeira e segunda infâncias”, identificável pelo conjunto simbólico da Carta astrológica natal, já estou a falar de sincronicidade, e o importante aqui é realçar que, da mescla dos produtos subjetivos da percepção realizada pelo indivíduo, como foi matizada pelas imagens arquetípicas, com as principais características objetivas do meio ambiente infantil, como são indicadas pela Carta astrológica natal, é que decorreu a quase totalidade dos conteúdos mentais pessoais inconscientes mais determinantes no indivíduo.
Tais duas diferentes classes de conteúdo merecem abordagens distintas pelo indivíduo, pois os traços estruturais, que são tipológicos e perenes, requerem “gerenciamento adequado de aspectos inatos”, ao passo que os traços conjunturais, que são fruto de treinamento por exposição a modelos, podem ser alvo de “desprogramação” ou descondicionamento, por catarse e ressignificação.
Catarse, porque as experiências vividas deixam resíduos inconscientes dos diferentes estados emocionais experimentados, instaurando a memorização de sentimentos que costumam estar na base de hábitos pessoais de comportamento e precisam ser revividos quando se almeja o descondicionamento.
Ressignificação, porque o mundo e a relação pessoal com ele são, antes de tudo, elaboração da mente por meio de imagens – “a psique é o eixo do mundo”, declarou Jung –, entre as quais as associadas a palavras e situações; a ressignificação, por conseguinte, permite redesenhar a imagem das relações existentes e redefinir a postura do indivíduo frente a elas.

VI.
Na prática interpretativa, passei a deduzir os traços estruturais de personalidade, alguns tendo experiência modulável pelo gênero (homem/mulher), a partir de cinco conjuntos de símbolos da Carta astrológica natal:
§  a Polaridade do Ascendente, do Sol e da Lua, avaliando o grau de predominância da instância anímica (Animus em mulher e Anima em homem) na dinâmica psíquica inconsciente da pessoa;
§  o total de Planetas por Elemento (Fogo, Terra, Ar ou Água), avaliando o balanceamento entre Intuição, Sensação, Pensamento e Sentimento;
§  o total de Planetas por Modalidade (Cardinal, Fixa ou Mutável), avaliando o grau de intensidade de estamina, resiliência e adaptabilidade;
§  o total de Planetas por Hemisfério (Noturno e Diurno), avaliando a ponderação de Introversão e Extroversão;
§  o total de Planetas em Signos de Polaridade positiva ou negativa, avaliando o grau de predominância das funções mentais dos hemisférios cerebrais direito ou esquerdo.
Para quem pratica Astrologia e vem fazendo esta contagem segundo métodos convencionais, informo que, diferente de contagens astrológicas por Modalidade, Elemento e Dignidade ou Debilidade, que dão pontuações variadas para distintos Planetas e para o Ascendente conforme o Signo em que estão, o que faço é contar de modo simples, um a um, como cedo pude aprender com o trabalho da astróloga norte-americana Betty Lundsted, sem pontuar o Ascendente e nem dar pontuação variável conforme seja Sol, Lua ou quaisquer Planetas.
Já os traços conjunturais de personalidade, eu os deduzo principalmente a partir de:
§  o Signo solar, isto é, o Signo em que está o Sol na Carta astrológica natal, e as principais narrativas míticas associáveis ao Signo;
§  a localização dos Planetas por Signos;
§  os Aspectos estabelecidos pelos Planetas entre si e com Ascendente e Meio do Céu (sendo ASC « MC o eixo estrutural simbólico de Persona);
§  a localização de Saturno por Casa astrológica.
Como a prática interpretativa destaca o que pareça mais significativo ou determinante a cada vez, outros detalhes podem ser identificados caso o trabalho se dê em níveis mais minuciosos, inclusive verificando a posição de Saturno, por Trânsito, e da Lua, por Direção Secundária Direta e Conversa (ambos, por Casa e Signo), quando da consulta de interpretação, para contextualizar no tempo a faceta arquetípica da teia do mundo em destaque: “qual é o mote, agora?”, que está sendo vivenciado (por aquela pessoa, segundo sua Carta).
A descrição pode ser enriquecida se for adicionalmente interpretada a localização de cada Planeta por Casa astrológica, além de por Signo, bem como fatores como Roda da Fortuna, Quíron, Lilith ou Nodos lunares, que são símbolos astrológicos secundários que optei por não discutir aqui.
No decorrer da interpretação, de mesmos arranjos simbólicos se extraem diferentes significados, conforme a passagem da narrativa que está sendo elaborada e expressa, sendo que esta simultaneidade de sentidos é uma das mais preciosas riquezas que a simbólica astrológica oferece, mas requer do astrólogo habilidade treinada, tanto na interpretação, quanto na elaboração e exposição (prudente) da narrativa devolutiva.

 
Se no quadro acima mencionei “espírito”, não estou atribuindo o que se costuma intitular “espiritual” a fator natural supra, infra ou intrapsíquico e, menos ainda, utilizando o termo em conotação religiosa. Estou apenas me referindo a fatores ordenadores imateriais de âmbito macro, derivados de campos mórficos e ou de campos psicoides, como se usa o termo em o “espírito do tempo”, denotando os dinamismos cocausadores de forma que determinam e definem o que ocorre no tempo e no espaço em cada fase ou instante.
Tão vasta é a variedade possível de informação, que a primeira regra de interpretação ensina: dentre todos os significados que se pode deduzir dos fatores-símbolo de uma Carta astrológica natal, selecione os que são mais decisivos do que se pode descrever e, com estes, construa a composição narrativa.
Já estará bom para o que se pretende.

VII.
Destacando que aqui falo especificamente do trabalho interpretativo que leva à psicoterapia ou enriquece a terapia que já esteja em andamento, Jung alertou em Psicologia e Alquimia que o simples conhecimento intelectual não basta, pois só é eficaz uma rememoração que seja ao mesmo tempo vivenciada de novo. Muitas coisas irresolvidas ficam para trás devido ao rápido escoar dos anos e ao afluxo invencível do mundo que acaba de ser descoberto. Mas não nos livramos destas coisas, apenas nos afastamos delas. Se muito tempo depois evocarmos novamente a infância, nela encontraremos muitos fragmentos vivos da própria personalidade, que nos agarram, e somos invadidos pelo sentimento dos anos transcorridos. Esses fragmentos permanecem num estágio infantil e por isso são intensos e imediatos. Só por meio de sua religação com o consciente adulto poderão ser corrigidos, perdendo seu aspecto infantil.
Neste exato sentido Fernando Pessoa poetou:
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou.
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
quero ir buscar quem fui onde ficou.
Como frisei em Astrologia Arquetípica, autoconhecimento e espiritualidade, a interpretação da Carta astrológica natal, se feita com propósito diagnóstico [isto é, visando enriquecer o cenário da psicoterapia], longe de ser unicamente um momento de mera discussão intelectual de dados e informações sobre a pessoa e sua destinação arquetípica e história vivida, é um encontro pleno de intensa afetividade, graças à vigorosa intervenção do próprio ato de interpretação, podendo ser um rito de passagem para outro estado de si, motivo pelo qual desde 1988 eu adoto a expressão ‘Astrologia Clínica’.
Enquanto recebe as informações que a Carta astrológica natal vocaliza por meio do intérprete, e podendo participar ativamente da dinâmica de desvelamento de si por meio da apresentação de questões e testemunhos durante a entrevista devolutiva (do conteúdo interpretado), a pessoa que consulta o astrólogo é levada a aferir, no íntimo, o que até aquele momento veio vivendo na existência:
§  o que obteve, frente ao que desejou;
§  o que atingiu, face ao que pretendeu;
§  as razões interiores de suas inadequações;
§  a confirmação de potenciais até então mal percebidos, mas pressentidos como verdadeiros e estando à espera de brotamento favorável.
Ou, como o astrólogo franco-americano Dane Rudhyar afirmou em A planetarização da consciência, se em decorrência do conhecimento propiciado pela interpretação astrológica a pessoa percebe que seus acontecimentos vitais, que até então haviam parecido cabalmente caóticos e sem sentido; se pode sentir uma direção e uma finalidade coerentes em sua vida, e como tem estado bloqueando esta compreensão do significado, da orientação e da finalidade, a Astrologia foi efetiva e pode levar a ir adiante.

VIII
O fato, se torna o processo interno mais compreensível por quem labuta para se conhecer ou entender melhor, e se reformar intimamente, ampliando a possibilidade de interferir (como der) nas próprias atitudes e comportamentos, e nas dinâmicas e conteúdos inconscientes que lhes dão origem, também costuma instalar um processo intenso de busca de alternativas de solução para o que foi detectado.
Tendo compreendido as razões de tantas de suas atitudes, inclusive as tidas por si como inadequadas ou inconvenientes, e tendo percebido – quiçá pela primeira vez – que pode interferir de modo ativo nos próprios dinamismos inconscientes para atenuar a compulsividade de comportamentos, a pessoa identifica e compreende melhor um panorama interior que é fruto de sua história formativa e, em imensa medida, veio determinando as condições de sua existência, por comportamento (íntimo ou manifesto) e sincronicidade (eventos associados por significado).
Mais ainda: é levada a enfrentar o dolorido fato de ter sido ela mesma, em ampla medida e de certa forma, cúmplice de suas dificuldades, mesmo se involuntariamente, já que reside em suas vontades inconscientes parte importante dos motivos das atitudes e escolhas, até as más ou inadequadas para si.
Em outras palavras, também tem sido a própria força interna uma importante responsável por problemas vividos ao lidar consigo e com a existência, mesmo que isto não fosse, até então, admitido.
Sendo assim, se é uma própria vontade o que tem dirigido a pessoa, e de um jeito que a si parece ruim ou inadequado, o que lhe cabe é trabalhar no sentido de alterar a orientação interna desta mesma vontade – isto é, de fato, autodomínio –, orientando-se para o que lhe pareça um melhor jeito de ser.
Com a vantagem de, agora, por meio da interpretação astrológica arquetípica de feição psicológica clínica, conhecer parcela importante dos próprios vetores inconscientes, entender melhor o que deu origem a tais dinamismos e vislumbrar a possibilidade de alterar o estado geral de coisas em sua vida, desde que queira e com este objetivo se comprometa com firmeza.
O novelo de dinâmicas inconscientes deve ser deslindado, os conteúdos afetivos que dão sustento a este emaranhado devem ser liberados, e as memórias, desejos e frustrações que ali residem devem ser conhecidos, assumidos ou superados, para alterar hábitos de comportamento de forma sustentada.
Num conjunto de afazeres que não é nada fácil, já que a parte inconsciente da mente humana resiste até onde consegue a mudanças, e modificar-se é indispensável ao desenvolvimento pessoal.
Por isto, usualmente se evidencia a utilidade do acompanhamento por um experiente especialista na delicada tarefa de participar do crescimento interno de pessoas, e este especialista costuma ser o psicoterapeuta, seja psicólogo ou psiquiatra.
Acompanhando-a, auxiliando-a, amparando-a e a incentivando enquanto a pessoa rememora, revive, analisa, integra e supera, o especialista, seja ele terapeuta de que modalidade terapêutica for, serve de companheiro de viagem no itinerário da pessoa por si no resgate de seus verdadeiros valores e propósito, em geral abandonados, distorcidos ou negados no correr da existência.
Rumo ao que foi, desde o início e sem que o soubesse com clareza, sua finalidade no plano geral da existência.





[1] Os arquétipos causadores das instâncias, que são as funções essenciais da mente, estes são sempre ativados na ontogenia, por caracterizarem a filogenia da espécie humana, para darem origem, no indivíduo, ao Ego, à Sombra, à Persona, ao Animus (ou Anima) e ao Self, além de outras características mentais tipológicas, como introversão e extroversão. Eu os chamo de “arquétipos funcionais”, já que determinam o surgimento de funções mentais específicas.
Outros arquétipos, próprios de tipos variados de vivência afetiva fundamental (porque derivados de experiências típicas humanas), ativam-se ou não em cada pessoa segundo sua destinação, induzindo, se ativados, um perfil individual próprio de personalidade e comportamento, conforme fatores simultâneos confluem para isto. Estes, eu denomino “arquétipos conteudísticos”, porque são cocausadores de conteúdo (nas instâncias).
[2] Isto, sugiro e analiso em Astrologia Arquetípica e comportamento, de Ptolomeu a Jung na teia do mundo.

6 de out. de 2015

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA E TRANSDISCIPLINARIDADE, NO APOIO AO ATENDIMENTO PSICOTERAPÊUTICO

Em setembro passado eu deveria ter participado da “X Jornada Gaúcha de Astrologia e Transdisciplinaridade”, na Universidade da Paz – Rio Grande do Sul.
Por infortúnio não pude, por uma série de desafios pessoais surgidos inesperadamente.
Decidi publicar aqui no blog, então, o que eu teria apresentado lá.
Como é material longo e complexo, será exposto em duas partes.
Quando da segunda parte, publicarei também o material de apresentação visual que teria embasado minha participação.


Creio que, com isto, ajudarei a enriquecer a compreensão que se possa ter sobre a Astrologia Clínica, de perfil e feitio psicodinâmico, à qual me dediquei desde 1985.

É importante esclarecer que penso a Astrologia Arquetípica como uma meta-Astrologia, frisando que “meta-Astrologia” não é uma técnica interpretativa de símbolos astrológicos. O termo “meta” é proposto no conceito aristotélico: se, em Aristóteles, Metafísica era o estudo do que transcende o sensível, do grego phusikós, “da natureza” (Houaiss), meta-Astrologia é o estudo que lida criticamente com as diferentes Astrologias dentro de um conjunto nocional que almeja ultrapassar as características peculiares de qualquer delas para focar no que haja de comum nelas todas – o que e como, realmente, elas denotam –, enquanto recursos descritivos de fenômenos que se dão no transcorrer do espaço-tempo.


I.
A Astrologia é, por natureza, transdisciplinar.
Como recurso técnico de diagnóstico ou prognóstico, ela não se basta em si: sendo símbolo, ela se expressa ao referir-se a algo, e este algo forçosamente abrange conceitos e vocabulário de outras disciplinas, em geral combinadas.
Se é Astrologia Mundial, se expressa por conhecimentos de Antropologia, Ciência Política, História e Sociologia.
Se é Astrologia Eletiva para Negócios, se expressa por conhecimentos de Administração, Direito e Economia.
Se é Astrologia Médica, se expressa por conhecimentos de Química Orgânica, Biologia e Fisiologia.
Se é Astrologia Vocacional, se expressa por conhecimentos de Pedagogia ou Psicopedagogia, bem como de Psicologia da Educação.
Como técnica (ou arte) de interpretação descritiva de aspectos da existência para diagnóstico e ou prognóstico, sua sintaxe simbólica é orientada pelo propósito, isto é, constrói-se conforme se orienta para este ou aquele assunto.
De acordo com o que se pretende diagnosticar ou prognosticar, organiza os múltiplos significados de seus símbolos e elabora a narrativa que parece mais bem atender à demanda de diagnóstico ou prognóstico.
Dá-se o mesmo com a Astrologia Clínica, de perfil psicológico: desenvolvida para enriquecer o atendimento psicoterapêutico, ela se expressa por meio de conhecimentos das Ciências da mente, entre elas a Psicologia e as Neurociências, e campos simbólicos de conhecimento, como a Mitologia.

II.
A Astrologia não é “saber básico”, de bancada, e, sim, “saber aplicado”, isto é, seu existir se dá de fato ao se manifestar por uma narrativa que objetiva instrumentalizar alguém no diagnóstico ou prognóstico de parcela da existência, seja mundo, sociedade, grupo, família ou indivíduo (e ainda coisa e evento), podendo embasar atitudes e/ou ações propositivas e/ou corretivas.
Se ela se faz ao narrar, e pretende ser eficiente ao diagnosticar ou prognosticar, a Astrologia deve adotar alguns princípios reitores da boa comunicação:
quantidade: a narrativa deve conter a quantidade necessária de informação e, ao mesmo tempo, não conter mais informação do que o necessário;
qualidade: a narrativa não deve afirmar aquilo que não se julga ser verdadeiro e nem aquilo que não se pode analisar ou comprovar;
pertinência: a narrativa deve se ater apenas àquilo que seja pertinente ao assunto comunicado;
objetividade: a narrativa não deve ser expressa de forma obscura ou ambígua.
Lembrei em Por uma Filosofia da Astrologia: se dá espaço ao exercício das associações que são imprescindíveis no trabalho de interpretar símbolos, a Astrologia Arquetípica deixa vãos enormes para imprecisão conceitual, linguagem vaga e generalista, uso amplificado de figuras de retórica (alegorias, analogias, metáforas e metonímias), enfim, tudo aquilo que não é propriamente objetivo e consistente ao se expressar e fica por conta de quem interpreta ou recebe a interpretação, com o que, muitas vezes, até mesmo a boa informação pode levar ao mau entendimento. Destacando e valorizando o seu conteúdo (e sua técnica), ela deve entregar uma boa narração.

III.
Boa narração requer precisão expressiva, inda mais num cenário de “religação de saberes”, de múltiplas técnicas com propósitos específicos (interpretação de Carta Natal, Progressões e Trânsitos, Sinastria, Eletiva, Horária, etc) e, por vezes, de apropriações ligeiras de conhecimentos de áreas complexas.
Manter esta precisão é um importante desafio da Astrologia Arquetípica: ao se oferecer como narradora do que se quer diagnosticar ou prognosticar, ela deve ultrapassar o simbólico (lírico, mesmo) em proveito de uma adequada descrição discursiva no que e como diz aquilo de que vai falar, seja o que for, para oferecer conhecimento utilizável por aquele ou aquela a quem ela serve.
Um dos complicadores é a inevitável apropriação que a Astrologia faz do discurso e do vocabulário de campos de conhecimento muito díspares – como a Astronomia e a Mitologia –, sem deter um seu próprio (exceto quanto ao jargão eminentemente metodológico).
Isto, para nem mencionar a imbricação habitualmente verificada entre a Astrologia e as técnicas (ou artes) ditas arcanas, como o Tarô, Cabala ou I Ching, quando símbolos se mesclam e recombinam de modo nem sempre congruente e explicável com nitidez, já que não se alerta de modo explícito que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa: a despeito do valor que tais técnicas tenham, Astrologia não é Tarô, Cabala e nem I Ching, e precisão expressiva é imprescindível no ofício interpretativo, para relativizar o lado cantante da alma.
Penso no termo que é o coringa das palavras: “coisa”. Ao absurdo, pode ser dito: “eu peguei uma coisa e pensei uma coisa; aí, eu senti uma coisa tão forte que preferi largar”. Nada específico foi comunicado, por mais que pareça ter sido significado algo. Objeto, pensamento e sentimento, tudo é coisa.
E coisa, aqui, nada disse.

IV.
No âmbito da especialidade psicológica da Astrologia Arquetípica, que é o foco mantido aqui, e como defini no livro Astrologia clínica, um método de autoconhecimento, é uma bênção dispor de um instrumento que propicie clara percepção do que ocorre nos desvãos do inconsciente, aos quais nem a própria pessoa tem acesso. Mas é igual bênção dispor de um arcabouço conceitual que propicie entender melhor, e como encaminhar de modo mais adequado, o que é então percebido. Pois se uma coisa é perceber e outra é compreender, apenas ambas bem articuladas é que propiciam uma ação congruente, responsável e benfazeja, com base no já percebido e então compreendido.
Na primeira parte: “clara percepção do que ocorre nos desvãos do inconsciente”, eu me referia à descrição diagnóstica da realidade psíquica para a qual a Astrologia Arquetípica é competente. Na segunda: “arcabouço conceitual que propicie entender melhor, e como encaminhar de modo mais adequado”, eu aludia ao pensar e fazer psicoterapêuticos (seja terapia profunda, breve ou de aconselhamento), para os quais o Psicólogo clínico é habilitado.
Uma, auxilia a diagnosticar; outra, sistematiza e desenvolve o procedimento terapêutico, se, quando e do jeito que for preciso.
É delicado este balanceamento, pois se parece impor rigor excessivo e, com isto, pode afastar ou desanimar quem pretende se desenvolver no ofício da Astrologia, por outro lado preserva qualidade, em informação e desempenho, ao delimitar aquilo que é oferecido: descrição da realidade mental de alguém, para, entre outros objetivos, apoio ao ofício da Psicoterapia.
Ao argumento: “ora, que mal pode haver se houver erro na interpretação?”, responde-se: pode haver muito dano, na exata medida em que os dados fornecidos na consulta de interpretação podem ser tidos pelo consulente como base suficiente para avaliações, decisões e ações, até mesmo a de se matar.
Falei, acima, de dois diferentes ofícios, o da Astrologia e o da Psicoterapia, porque astrólogo não é terapeuta – e isto deve ser dito de modo franco. Para além de conhecimentos gerais sobre Humanidades, para além de compaixão pelo próximo, para além de vocação para o labor, é essencial ter preparo teórico e metodológico para a delicada tarefa de acompanhar terapeuticamente alguém em tarefas de autoconhecimento para aprimoramento íntimo por ressignificação e catarse, o que ultrapassa com folga a interpretação narrativa astrológica e requer o preparo técnico característico do terapeuta.
Tal tipo de cuidado atento respeitoso, se é essencial para a fértil aproximação da Astrologia Arquetípica com a atividade clínica da Psicologia, o é também ao relacioná-la com outros campos de conhecimento, pois em todos eles há especificidades que devem ser preservadas e defendidas, por não serem apenas miopia ou estreitas limitações do modelo positivista, como querem alguns, a eliminar ou desconsiderar a priori.

(Fim da primeira parte)

10 de jul. de 2015

REGISTROS DE UMA ENTREVISTA

Em junho de 2015 fui contatado pela revista Glamour (Editora Globo), que informou estar preparando uma matéria sobre Astrologia para sua edição de julho.

Raras vezes me disponho a dar depoimentos sobre Astrologia a publicações de variedades, dado o tipo de tratamento editorial que por costume se adota, indo da banalização de informações ao propósito mal disfarçado de tratá-la como superstição.
Todavia, ao receber questões inteligentes e instigantes, pareceu-me poder ser diferente.
Vã esperança. Como o que respondi por escrito (e-mail) foi remontado, por quem redigiu a matéria, de modo a que a justaposição de frases descontextualizadas originasse um raciocínio estruturado para reforçar a intenção editorial implícita do texto – “Astrologia é superstição ilusória” –, pareceu-me bom publicar aqui, para quem queira conhecer, as questões enviadas a mim e o que de fato respondi.
Seria insano que, após 30 anos continuados de estudo de Astrologia, e com cinco livros editados sobre o tema, eu tivesse apequenado a riqueza de conhecimentos oferecida pela Astrologia como “um recurso para manter a autoimagem positiva”.

1. Como você vê a relação entre signos e personalidade?
Embora nos inclinemos a supor que somos “únicos”, em verdade somos mesclas particularizadas de certas características comuns a todos (relativamente poucas e mais ou menos as mesmas em tipo, variando a intensidade) e próprias da espécie humana (falo de emoções e sentimentos, que nos caracterizam mais do que os pensamentos).
 A simbologia astrológica – Signos, Planetas, Aspectos (ou ângulos geométricos entre os fatores) e Casas astrológicas – permite identificar quais destas características são predominantes em cada pessoa, em sua fórmula pessoal muito peculiar e própria de combinação, e esta indicação é dada pela Carta natal astrológica, também chamada de Horóscopo.
Com poucos símbolos, não mais de 40 (12 Signos, 10 Planetas, 5 ou 6 Aspectos e 12 Casas astrológicas), quando combinados fatorialmente é possível identificar milhões de arranjos simbólicos diferentes, razão pela qual a descrição em detalhes de cada caso particular é possível e a Astrologia, enquanto recurso de diagnóstico, pode ir mais profundo e minucioso do que as generalizações que dominam o senso comum sobre ela.
A interpretação de uma Carta natal astrológica, pela associação de seus símbolos a noções derivadas das principais Escolas de Psicologia (freudiana, junguiana, transpessoais, etc), permite identificar o que costumo chamar de “traços estruturais de personalidade”, aqueles que são tipológicos e originários da pessoa, e “traços conjunturais de personalidade”, aqueles que decorrem de condicionamento por exposição a estimulação ambiental precoce (pré-natal, perinatal e infantil).
Em resultado, diagnostica-se a pessoa como um todo, em seus principais atributos de personalidade (tipológicos e ou condicionados), bem como as dificuldades, os conflitos e os potenciais íntimos e ou manifestados.

2. Você acha que o mapa astral pode ser útil de alguma maneira na terapia?
Sem dúvida e em dois aspectos complementares, como descrevo em dois dos meus livros: Astrologia clínica, um recurso de autoconhecimento (1991) e Astrologia arquetípica e comportamento, de Ptolomeu a Jung na teia do mundo (2015).
O primeiro aspecto diz respeito à possibilidade de utilizar técnicas adequadas de interpretação astrológica como recurso psicodiagnóstico, para encaminhar questões em psicoterapia: quais as principais áreas internas pessoais de conflito (das quais costumam decorrer os conflitos externos), qual a causa destes conflitos (no tocante a características originárias de personalidade versus modelagem por pressões ambientais precoces) e quais potenciais podem ser terapeuticamente convocados para dissolver bloqueios e enriquecer o desenvolvimento pessoal.
Em ao menos oito áreas distintas de experiência vital: afetivo-relacional, intelectual-cognitiva, relação com bens e finanças, relação com casamento ou sociedade, relação com trabalho, religiosidade-espiritualidade, sexualidade-sensualidade e sociabilidade.
O segundo aspecto diz respeito ao que será abordado na próxima questão, pois facilita ao profissional de psicoterapia compreender com mais clareza quais conteúdos mentais, sejam conceituais ou sentimentais, e conflitivos ou não, estarão mais aflorados, ou exacerbados, em cada época da vida da pessoa, propiciando sua abordagem e bom encaminhamento terapêutico.
Em outras palavras, facilita ao psicoterapeuta apurar o foco das intervenções, bem como calibrar a intensidade de tais intervenções, almejando obter ressignificações e catarses transformadoras.

3. E a porção “previsão” da astrologia, como funciona para a psicologia?
Para entender melhor, e adequadamente, esta possibilidade técnica da Astrologia, é necessário admitir que:
a. os símbolos astrológicos denotam quais componentes psicodinâmicos se combinam em uma particular psique, e em que tipo e intensidade de combinação (eliciando certos, e não outros, sentimentos e ou pensamentos);
b. as expressões mais características da personalidade de alguém costumam se mesclar com eventos ambientais que ocorrem em sincronicidade e expõem significados análogos (complementares ou especulares, de “espelho”) ao que “dentro” se passa.
Admitindo isto, então, e podendo antecipar quais arranjos simbólicos astrológicos estarão ocorrendo a cada dado instante, pode-se prognosticar, com grande margem de acerto, quais vivências internas (em qualidade e intensidade) e experiências externas (em categoria experiencial) estarão ocorrendo a cada instante dado de tempo.
Visto assim, o que parece “previsão de futuro” é apenas a detecção de determinadas configurações mentais que predominarão em certo momento do futuro, e as categorias de ocorrências ambientais que, em sincronicidade, se combinarão com os conteúdos destas configurações mentais, propiciando sua melhor expressão.

4. Como um terapeuta pode usar astrologia para contribuir no tratamento, na prática?
Creio que foi respondido na questão 2. Sobre isto, penso ser necessário salientar um aspecto essencial da relação entre Astrologia e Psicologia: astrólogo não é terapeuta. Em certos casos, até pode haver superposição de preparos na mesma pessoa, mas por costume o astrólogo não detém o amplo leque de conhecimentos teóricos e técnicos necessários ao bom atendimento terapêutico, seja terapia profunda ou terapia breve, algo que somente por graduação (psicólogo) ou especialização (psiquiatra) se desenvolve.
Neste sentido, compete ao astrólogo, no máximo e se tiver preparo para isto, dar algum aconselhamento (até indicando que se faça terapia com profissional gabaritado), mais se aproximando do coaching do que da psicoterapia.
De outro lado, entre psicoterapeutas ainda há bastante desconhecimento das possibilidades psicodiagnósticas da Astrologia e, portanto, do quanto o seu ofício poderia ser enriquecido, na fase de diagnóstico, em benefício dos próprios pacientes.

5. Acreditar em horóscopo: faz bem ou mal? Qual o limite?
O limite é o do bom senso.
Se a pergunta refere o que se costuma ver em veículos de comunicação de massa (horóscopos de jornal ou revista, por exemplo), são generalizações para médias humanas e, como tal, insuficientes para aplicar-se com mais propriedade a qualquer pessoa em particular.
São como que descrições banalizadas das dinâmicas mais comuns da mente humana e, como tal, referentes a experiências vitais mais corriqueiras em todo mundo, apenas podendo ganhando maior ou menor realce em uma particular pessoa.

6. Um psicólogo que use a astrologia: como isso é regularizado, comunicado etc?
Ignoro como isto ocorre em outros países, mas no Brasil os Conselhos profissionais de Psicologia (Federal e Estaduais) não reconhecem a Astrologia como prática válida e aceita entre os recursos de psicoterapia reconhecidas legalmente.
Por esta razão, os psicólogos que utilizam os conhecimentos da Astrologia, sendo astrólogos ou lançando mão do trabalho de astrólogos profissionais, costumam não divulgar publicamente tal fato para não sofrer sanções.
Seria como a relação entre Medicina e curandeirismo: se um médico lançar mão de algum recurso de cura “natural” não reconhecido pelo Conselho Federal ou Regional de Medicina, mesmo tendo resultados positivos provavelmente ele não divulgará o fato.
Mas vale lembrar o que o antropólogo, sociólogo e filósofo Edgar Morin, um dos mais brilhantes pensadores dos finais do Século XX, afirmou em seu livro Ciência com consciência que “a ciência é, e continua a ser, uma aventura. A verdade da ciência não está unicamente na capitalização das verdades adquiridas, na verificação das teorias conhecidas, mas no caráter aberto de aventura que permite, melhor dizendo, que hoje exige a contestação das suas próprias estruturas de pensamento. Talvez estejamos num momento crítico em que o próprio conceito de ciência se esteja modificando”.
Sendo assim, as fronteiras entre profissões estão cada vez menos bem definidas e mesmo as características típicas de cada ofício estão mudando muito rapidamente, e talvez estejamos chegando num momento em que a Astrologia possa ser aceita como técnica de diagnóstico e prognóstico (por análise de tendências) da realidade, como proponho no livro Por uma Filosofia da Astrologia (2014).

7. As descrições dos signos e as previsões não são comumente muito genéricas e se encaixam em qualquer personalidade?
Depende de a qual nível de informação está se referindo.
Se a questão diz respeito às seções de Astrologia em veículos de comunicação de massa, certamente sim (embora em “quase qualquer” e, não, “qualquer personalidade”), e isto vimos na resposta à questão 5.
Se a questão diz respeito à interpretação que um profissional bem preparado é capaz de fazer, não, principalmente porque ele não interpretará o Signo isoladamente, mas no conjunto de muitos fatores-símbolo da Carta natal astrológica individual: toda pessoa, como todo fenômeno complexo, é multideterminado. E o Signo é apenas um dos fatores-símbolo de determinação; embora fundamental, há tonalizações.
A prática mostra haver arianos e arianos, ou taurinas e taurinas: para mais bem defini-los não basta ser de Áries ou Touro, há que ver o restante da Carta natal. Todavia, há traços específicos que diferenciam a ariana da taurina, por exemplo, assim como por mais que duas pessoas humanas sejam diferentes entre si, elas são extremamente parecidas, quando em comparação com um animal de outra espécie.

8. Li sobre o mecanismo chamado de Efeito Forer, de encaixar as descrições de acordo com o que “interessa” e ignorar o que não casa com seu perfil. Como isso funciona?
Por mais que se julgue ou busque ser racional ou isento, todos temos vieses cognitivos que interferem de modo poderoso na leitura que fazemos do mundo, dos outros e de nós mesmos no mundo.
Entre eles, está o de nos inclinarmos a valorizar o que dizem ser o melhor em nós mesmos, segundo o que julgamos ser positivo, bem como a minimizar o que dizem ser o pior em nós mesmos, segundo o que avaliamos ser negativo: trata-se de manter uma autoimagem positiva, tão necessária para a mente como manter uma boa saúde é para o corpo.
Além disso, temos forte inclinação a validar descrições genéricas como se dissessem diretamente respeito a nós, nos influenciando com isto e tendendo a aceitar afirmações sobre nós em função do nosso desejo de que as afirmações sejam verdadeiras, mais do que em função da exatidão empírica das afirmações, se avaliadas objetivamente.
Esta característica humana de “autoconvencimento” também talvez esteja por detrás do chamado “efeito placebo”, quando pílulas sem efeito medicinal algum são utilizadas em experimentos científicos e inexplicavelmente fazem com que certos pacientes se sintam melhor: “o médico disse que este remédio é bom!”.
Bertrand Forer foi um psicólogo norte-americano que, na década de 40 (buscando contrapor-se aos estudos sobre paranormalidade, então em curso) estudou e mensurou este aspecto humano de “autoconvencimento”, denominando-o “validação subjetiva”.
Tal fato, entretanto, não diz respeito apenas a afirmações de astrólogos, de cartomantes ou de praticantes de outras técnicas convencionalmente chamadas “divinatórias”: esta característica humana é aproveitada por todos aqueles que pretendam manipular opiniões das pessoas sobre si mesmas.
Por isso, para a Astrologia vir a ser aceita como recurso útil de diagnóstico da realidade mental, ela deverá ser, de alguma forma, validada mediante a mensuração objetiva de suas afirmações sobre alguém, mesmo que subjetivas, o que já é possível com procedimentos de avaliação psicodinâmica como o das Manchas de Rorschach.

Mas isto deverá vir no futuro, ainda não ocorre...


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